25 de outubro de 2020

Sobre a Neurose

                Félix Elvas Pequeno

       A ideia de neurose é mais simples e, de certa forma, menos pretensiosa do que o conjunto de nossa vida. Não somos apenas a nossa neurose, nós não nos definimos pela neurose, ou pela nossa psicose, ou pela nossa perversão. Elas são maneiras de estar na linguagem, são estruturas. Não são doenças que ficaríamos melhores se as tirássemos de nossa vida, porque no fundo, são modos de interpretar o que é o outro, modos de ler o que está acontecendo nessa relação intersubjetiva, nessa relação de fala, em que eu recebo a minha própria mensagem de forma invertida, a partir do outro, ou não. Ou então, recebo mensagens que vêm diretamente do outro, e ai não estou mais na estrutura neurótica ou psicótica. Então, a condição de felicidade de uma vida, ela depende, parcialmente, de como a gente resolve as nossas neurose. 

        A capacidade de pensar nos leva a fazer transformações de olhar para dentro de si, para o outro e para o mundo, de maneira global. O neurótico não coloca em primeiro lugar o seu desejo, mas sim, o seu “eu”, o seu narcisismo, as suas defesas, o seu receio diante do fato que a neurose é uma forma típica de resolver conflitos e de evitá-los, não se dedica a eles para produzir algo que pode ser, inclusive, uma transformação de si, do mundo e do outro. Freud dizia: “só os artistas e algumas pessoas conseguem usar suas fantasias para criar coisas interessantes para todo o mundo.” A maioria dos neuróticos usa suas fantasias para criar sintomas, para criar restrições, para criar modos de funcionamento que, por exemplo, irá infringir sofrimento ao outro, ou então irá aumentar aquele sofrimento que faz parte da vida. 

         O trabalho de uma análise é a gente transformar o sofrimento neurótico em miséria comum, em sofrimento banal, e o fato de que sem a neurose, o que a gente tem é a vida, tal como ela é. Isso não quer dizer Felicidade, isso não quer dizer que você se tornará uma pessoa genial, espetacular, ou talentosa, porque em geral, isso é um produto dos nossos complexos infantis, que nos fazem imaginar que temos que ser alguém super, mega, hiper, para poder se reconhecido, amado, para poder fazer valer o seu desejo, para poder estar de forma interessante, construtiva na vida e no mundo. 

          Então, qual o sentido do tratamento analítico? Temos um inconsciente que nos prega peças, esse inconsciente governa a nossa vida, e por isso fazemos análise, mas essa análise nunca conseguirá esgotar completamente o inconsciente. Nós vamos continuar a ter sintomas, fantasias, inibições, continuar, no fundo, com aquelas mesmas condições que são estruturais. Então, o que mudará em nós? Você estará advertido disso. Você saberá como isso é produzido. Então, você tem a opção extra de recuar diante da intensidade e diante do fato de que essas são as condições que governam a sua vida. Então, após a análise, o que acontece? A vida volta para a sua mão. Você pode governá-la, você pode dar um destino que seria propriamente o seu, e não um destino que seus pais queriam para você, ou que você achava que seus pais queriam para você, ou o destino que você acha que a sociedade queria para você, ou o destino que você acha que o outro inventou para você. 

           Isso não significa, necessariamente, que você será alguém pleno, significa, talvez, que você será alguém um pouco mais emancipado, menos alienado, um pouco menos enganado pela sua própria fantasia inconsciente. O inconsciente está lá, nenhum programa clínico interessante pode advir da idéia de extirpar o inconsciente, de tornar alguém, ao invés de neurótico, “normal”. Não existe estrutura mental “normal” na psicanálise. Nem tudo é estrutural em um tratamento analítico, nem tudo é estrutural na produção dos sintomas, na maneira que lidamos com nossas fantasias, com o nosso gozo, com os nossos parceiros.


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