21 de novembro de 2019

" O que não tem remédio nem nunca terá"

           Félix Elvas Pequeno     

        O que fazemos quando se trata da dor que castiga a mente? Aquela que é tão forte, tão intensa que acaba doendo no próprio corpo? Muitas vezes, tentamos ignorá-la. Só damos real importância ao sofrimento psíquico quando ele se torna físico. Depois de passar por muitas consultas, com médicos das mais diversas especialidades, e de se submeter a vários exames, sem nenhuma melhora, alguns finalmente se dão conta de que a dor que persiste é apenas um aviso, um alerta: a verdadeira origem da dor pertence a conflitos psíquicos e o profissional a ser procurado é outro.
         É importante delimitarmos o que é domínio da medicina e o que não é. Com a quantidade de laboratórios desenvolvendo um número cada vez maior de remédios para cada parte do nosso corpo e oferecendo cura instantânea é mais tentador corrermos a um médico do que procurarmos um psicanalista. Nem sempre a medicina dará conta de tudo, e aquela busca que parecia levar à solução imediata acaba se transformando em frustração. Em alguns momentos, sabemos que a dor vivenciada pertence a algo que vai além do orgânico, mas preferimos não acreditar. Então tomamos remédios e a dor não passa; continuamos com aquela angústia, com aquela inquietação que não conseguimos definir. A dor mental, tem a ver com a nossa história de vida e com os conflitos que estamos passando e que não conseguimos enfrentar. É então que o corpo fala, dolorosamente.
          Aquilo com o que o sujeito não consegue lidar, portanto, precisa ser conversado com um profissional – no caso, o psicanalista - que possui técnicas e conhecimentos específicos para conduzir o dono da dor pelo caminho seguro da cura. Devemos considerar que mente e corpo caminham juntos. Quando estamos doentes podemos ficar desanimados e muitas vezes até deprimidos. A dor física mexe com o nosso psiquismo. O contrário também acontece. O sofrimento mental se reflete em nosso corpo. A solução é perceber que essa dor pertence a outra ordem e que não é o médico que deverá enfrentar e sim o próprio sujeito. Se a medicina não está dando certo, é hora de deixarmos nossos preconceitos de lado e buscarmos a ajuda de um psicanalista. No início você falará sobre suas dores físicas, mas quando você se der conta você estará falando dos seus conflitos internos que teimam em se esconder.
        De repente, percebemos que a dor foi embora, mas passamos a sentir a necessidade de voltar para aquele consultório, passar os 50 minutos preciosos falando, ou mesmo, em silêncio. É aí que vemos que aquela dor física era um sintoma que comparecia no corpo, mas que pertencia ao inconsciente, e é nesse momento que o psicanalista se torna necessário. Basta então refletirmos para perceber que, às vezes, somos tomados por uma força maior, mas por causa da roda-viva e do individualismo achamos melhor “esconder a sujeira em baixo do tapete”. Não há como medicar o que não tem remédio. Para diminuir a angústia, a psicanálise nos aponta o caminho da fala, da conversa. O grande psicanalista Lacan nos disse: “A angústia não se resolve, se dissolve em palavras”.
(Síntese feita por Félix Elvas Pequeno é psicólogo e psicanalista, do texto de Raquel Gomes da Silva e Roberta Santos Godim-Psicólogas e psicanalistas). Abraço...

10 de novembro de 2019

Sobre falar de mulher

         
Félix Elvas Pequeno

            Saber o que quer uma mulher, é uma pergunta que nem Freud conseguiu responder. “Nunca fui capaz de responder à grande pergunta: o que uma mulher quer?” (Sigmund Freud). Não vou me atraver à responder a essa pergunta, mas vou tentar escrever sobre falar de mulher. As mulheres lutaram, durante muitos anos, por direitos iguais aos dos homens e enfrentaram os preconceitos sofridos. Hoje, depois de tantas conquistas femininas, mais do que nunca é enfatizada a independência feminina diante de seus múltiplos papéis na sociedade. Apesar dessa batalha por igualdade, homem e mulher, definitivamente, nunca serão iguais.
            Penso que falar de mulher implica falar de maternidade, cuidado, afeto. Nos remetemos à imagem da sensibilidade, da coragem, da vaidade, da intuição. A mulher não é mais aquele sexo frágil de antigamente, conquistou seu espaço na sociedade. As vezes fraca, as vezes forte, ora dependente ora independente. São diversas as facetas assumidas pela mulher, fazendo com que o seu desejo seja encarado como um enigma.O lugar da mulher é onde ela deseja estar, não é onde querem que ela esteja! Se percorrermos o caminho da arte- poesias, música, pintura, por exemplo-, perceberemos como todos tentam desvendar esse o obscuro inconsciente da mulher, mas não conseguem!!
            Quando falamos em mulher, não podemos negar sua magnitude: é a única que pode conceber a vida e aquela que, na maioria das vezes, exerce a função materna, função primordial para a teoria psicanalítica. A criança tem de ser cuidada, investida e desejada. Esse papel, na maioria das vezes é exercido pela mãe; é ela quem traduz os afetos e emoções vividos pelo bebê e torna-se uma espécie de mediadora entre ele e o mundo externo, possibilitando que a criança inicie um processo de reconhecimento enquanto pessoa. É claro que ser mulher não implica necessariamente em exercer a função materna, assim como o ato de cuidar pode ser realizado por outro sujeito. Se não houver desejo de ser mãe, o valor da mulher não será menor por esse motivo.
           Enfim, mesmo que continue assumindo tantas posições na sociedade, nos parece inesgotável a tarefa de desvendar o que realmente quer uma mulher.Talvez ela queira que parem de perguntar: "o que quer uma mulher?" Porque só ela sabe e ponto final!!

(Félix Elvas Pequeno é Psicólogo e Psicanalista). Abraços afetuosos as mulheres, as quais respeito e amo profundamente, assim como amei minha mãe, que já partiu, há 2 anos, do passeio que fez aqui na terra e agora deve estar passeando por aqui e por ali...