19 de junho de 2019

O grito do desejo


Félix Elvas Pequeno

"O desejo, roubado dos seus direitos, é dominado, à força, por um poder estranho e mais forte: a sociedade. O desejo grita: “Eu quero!” A sociedade responde: “Não podes, tu não deves”. O desejo procura o prazer. A sociedade proclama a ordem.

E assim se configura o conflito. Tudo seria mais simples se o conflito, a repressão, estivesse localizada fora de nós e o desejo alojado dentro de nós. Pelo menos, dessa forma, os inimigos estariam claramente identificados e separados. Entretanto, a psicanálise afirma que, se é verdade que a essência da sociedade é a repressão do indivíduo, a essência do indivíduo é a repressão de si mesmo. Somos os dois lados do combate. Perseguidor e perseguido, torturador e torturado. Não é exatamente isso o que experimentamos no sentimento de culpa? Somos nossos próprios acusadores. E, no seu ponto extremo, a culpa desemboca no suicídio; o suicida é, ao mesmo tempo, carrasco e vítima.

Vivemos em guerra permanente conosco mesmos. Somos incapazes de ser felizes. Não somos o que desejamos ser. O que desejamos ser jaz reprimido. E é justamente aí que se encontra a essência do que somos. Somos o nosso desejo, desejo que não pode florescer. Mas, o pior de tudo, como observa Freud, é que nem sequer temos consciência do que desejamos. Não sabemos o que queremos ser. Não sabemos o que desejamos porque o desejo, reprimido, foi forçado a habitar as regiões do esquecimento. Tornou-se inconsciente.

Acontece que o desejo é indestrutível. E lá do esquecimento em que se encontra, ele não cessa de enviar mensagens cifradas para que seus captores não as entendam. E elas aparecem como sintomas neuróticos, como lapsos e equívocos, como sonhos... os sonhos são a voz do desejo.

Freud estava convencido de que nossos desejos, por mais fortes que sejam, estão condenados ao fracasso. E isso é assim porque a realidade não foi feita para atender aos desejos do coração. A realidade segue seu curso férreo, em meio às nossas lágrimas.

O viver cultural estabelece regras que não são condizentes com o princípio de prazer, que é a obtenção da satisfação máxima, imediata e segura. Temos que aprender um modo secundário de existência, em que é preciso contentar-se com uma satisfação parcial, muitas vezes adiada, e nem sempre existente.  Portanto, viver em realidade, domar satisfatoriamente os desejos, adequando-os às exigências, por um outro lado pode propiciar uma maneira de utilizar a angústia como forma de crescimento"(Rubem Alves)

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