28 de abril de 2019

Por que o homem,em geral, não suporta regeição?

              Félix Elvas Pequeno

            Durante os primeiros meses de vida de uma criança, a mãe se torna um objeto de conhecimento e de desejo. É por meio dela que a mesma tem contato com outras pessoas e com o mundo. Esta relação entre mãe e filho(menino) durante os primeiros meses é um tipo de simbiose natural, na qual a criança necessita da mãe para sua sobrevivência e vai se desligando e deixando, gradativamente, de depender da genitora. 
               Em algumas relações, a mãe se comporta de maneira a superproteger o filho e não permitir o seu desenvolvimento natural. Este comportamento é considerado uma dependência simbiótica doentia. Mãe e filho formam uma relação simbiótica durante a infância. O homem tem de fazer um grande luto para sair do amor materno e criar laço com outra mulher.
                 Muitos não fazem esse ,percurso, ficam “casados” com a mãe até morrer. Viram um dom-juan ou escolhem romances fadados ao fracasso para que, inconscientemente, continuem na parceria imaginária mãe-bebê. Você conhece homens assim?(Félix Elvas Pequeno é Psicólogo e Psicanalista). Abraços...
www.felixpequeno.com.br

27 de abril de 2019

Minha Vida (Não) é Um Tédio

Félix Elvas Pequno

A sensação de vazio entediante que faz a existência parecer uma sequência estéril de dias sem qualquer sentido tem a ver com a falta de “criatividade psíquica”, que destrói a imaginação e o interesse real pelas coisas da vida.

* Marion Minerbo

                    Todos nós nos entediamos em situações específicas como passar horas no trânsito, num aeroporto, ou em uma festa em que não conhecemos ninguém. Mas o tédio que interessa ao psicanalista é aquele ligado à sensação crônica de vazio existencial: a pessoa sente que a vida não tem sentido, nada é vivido como significativo nem parece valer a pena. A vida é uma sequência estéril de dias e a pessoa não sabe o que fazer consigo mesma. Há um sentimento penoso e estranho de que o eu é construído artificialmente “de fora para dentro”, e não “de dentro para fora” com experiências genuínas, verdadeiras, com lastro.
                     O tédio costuma ser confundido com a depressão, mas são vivências diferentes. Na depressão o sentimento é de perda e de tristeza: havia algo que iluminava a existência, e este algo foi perdido. O deprimido não se sente vazio, mas “cheio de tristeza”, o que pode ser uma reação muito saudável diante de uma perda. Ele continua sonhando em recuperar aquilo que perdeu, enquanto o problema do entediado é que ele não sonha com nada. O mesmo afeto também costuma ser confundido com uma insatisfação com a vida. Até certo ponto, ela é positiva porque pode ajudar o insatisfeito a mudar de vida. Já a pessoa entediada vive um simulacro de vida. Ela ainda não conseguiu criar uma vida própria “de verdade”. Se “mudar de vida”, provavelmente em pouco tempo voltará a se sentir entediada.
                        Para não sofrer de tédio, muitas pessoas se lançam em atividades frenéticas, ou ao contrário, desligam-se dormindo muito. Podem usar drogas, ou então parasitar a vida dos outros. Celulares e redes sociais podem ser usados para disfarçar a sensação de vida vazia e sem sentido. (Note, porém, que esses mesmos estímulos podem ser usados de modo muito criativo). Quando, por qualquer motivo, esses recursos não estão disponíveis, o tédio se agudiza. Isso porque eles funcionam como “acompanhantes” que dão uma sustentação psíquica no tempo e no espaço. Quando faltam, a pessoa se sente largada de repente: ela cai e se esborracha brutalmente no vazio.

                         É a falta radical de criatividade psíquica que mata a imaginação e o interesse pelas coisas da vida, originando o vazio e o tédio. Criatividade, aqui, não tem nada a ver com ser artista ou descobrir soluções criativas para problemas. Trata-se da capacidade de criar algum sentido para a vida, de acreditar em um motivo para sair da cama cada manhã. Uma criança com um desenvolvimento psíquico normal não se entedia, pois é capaz de pegar qualquer coisa, uma tampinha de garrafa, e imaginar uma brincadeira com aquilo. A criatividade é a função psíquica mais importante porque “ilumina” nossas vidas. E então qualquer coisa pode se tornar interessante, envolvente e valiosa.

* Marion Minerbo é psicanalista, analista didata e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Autora dos livros Neurose e Não-Neurose (Ed. Casa do Psicólogo), Transferência e Contratransferência (Ed. Casa do Psicólogo) e Diálogos sobre a clínica psicanalítica (Ed. Blucher), que será publicado no início do segundo semestre.

Sobre o Bode expiatório(Ovelha Negra)

 Félix Elvas Pequeno

                  O termo, bode expiatório ou ovelha negra, é popularmente usado em referência a alguém, geralmente o mais fraco ou o mais sensível, que foi injustamente escolhido para carregar, sozinho, a culpa por todos os malfeitos de uma situação, embora não seja responsável por nenhum deles. Em muitas situações, sabemos que uma pessoa inocente pode acabar sendo acusada e punida por algo que não fez ou não teve responsabilidade direta. Antes que sua inocência seja provada, as pessoas o repudiam, zombam e insultam sem, nem mesmo, saber das verdades por detrás dos fatos. 
                   Na sociedade atual, os grupos utilizados como “bode expiatório” são aqueles selecionados para carregar o sentimento de culpa. Por exemplo, culpar os gays pela destruição da família, culpar as mulheres pelos estupros, culpar os negros pelo racismo, culpar os índios pelo seu genocídio, entre tantos outros... “Nas relações humanas, certas pessoas têm a necessidade de apontar o dedo para o “bode expiatório,” porque é mais fácil culpar terceiros, por não entender ou não saber lidar com suas frustrações e decepções, responsabilizando os outros no ponto de vista moral e psicológico Nesse sentido, pais culpam os filhos pelas brigas na família, maridos culpam as mulheres pela falta de afeto no casamento, etc...
                     O “bode expiatório” é a transferência do sentimento de culpa, que se constitui em um ato irracional e ilusório que são transferidas de maneira inconsciente ou consciente para outras pessoas. O “bode expiatório” é a pessoa ou grupo delas, onde  todos os pecados são projetados...  (Félix Elvas Pequeno é Psicólogo e Psicanalista). Abraços...

17 de abril de 2019

Sobre a Sociedade Engaiolada

             Félix Elvas Pequeno           

                       A nossa sociedade contemporânea, cheia de regras e adestramentos fez com que existisse uma padronização completa das pessoas, de tal maneira que todos se comportam do mesmo jeito, falam das mesmas coisas, se vestem mais ou menos da mesmo maneira, sorriem igualmente nas fotografias, compartilham das mesmas escolhas, etc. Ou seja, as nossas singularidades inexistem diante de uma sociedade encaixotadora.
                        Vivemos engaiolados, tendo sempre que se adequar as normas pré-determinadas, então ficamos todos iguais e "felizes". Sendo assim, a vida acaba se transformando em uma grande linha de produção, em que todos têm que fazer as mesmas coisas, ao mesmo tempo e no mesmo ritmo. 
                        Estamos enjaulados em vidas superficiais e nos tornamos seres totalmente desinteressantes, inclusive, para nós mesmos! “As pessoas só ficam realmente interessantes quando começam a sacudir as grades de suas gaiolas”. E, sobretudo, é preciso ser inadequado, porque não se adequar a uma sociedade doente é uma postura corajosa e libertadora! (Félix Elvas Pequeno é psicólogo e Psicanalista). Abraços!

9 de abril de 2019

Sobre a satisfação

                   Félix Elvas Pequeno

                O sempre surpreendente Guimarães Rosa dizia: “O animal satisfeito dorme”. Por trás dessa aparente obviedade está um dos mais profundos alertas contra o risco de cairmos na monotonia existencial, na redundância afetiva e na indigência intelectual. O que o escritor tão bem percebeu é que a condição humana perde substância e energia vital toda vez que se sente plenamente confortável com a maneira como as coisas já estão, rendendo-se à sedução do repouso e imobilizando-se na acomodação.
                     A advertência é preciosa: não esquecer que a satisfação conclui, encerra, termina; a satisfação não deixa margem para a continuidade, para o prosseguimento, para a persistência, para o desdobramento. A satisfação, limita e amortece... Um bom filme não é exatamente aquele que, quando termina, nos deixa insatisfeitos, parados, olhando, quietos, para a tela, enquanto passam os letreiros, desejando que não cesse? Um bom livro não é aquele que, quando encerramos a leitura, permanece um pouco apoiado no colo e nos deixa absortos e distantes, pensando que não poderia terminar? Uma boa festa, um bom jogo, um bom passeio, uma boa cerimônia não é aquela que queremos que se prolongue?
                      Demora um pouco para entender tudo isso; aliás, como falou o mesmo Guimarães, “não convém fazer escândalo de começo; só aos poucos é que o escuro é claro”…
( Síntese feita por Félix Elvas Pequeno- Psicólogo e Psicanalista de um capítulo do livro:"Nós não nascemos prontos." ( Mario Sergio Cortela). Abraços!

2 de abril de 2019

O idiota, o sábio e a jarra

               Félix Elvas Pequeno   

         Idiota pode ser o nome dado ao homem comum, que repetidamente interpreta mal o que lhe acontece, o que faz, ou que é causado por outros. Ele faz isso de forma tão plausível que, para ele mesmo grandes áreas da vida e do pensamento parecem lógicas e verdadeiras para ele!

"Certo dia, um idiota desse tipo foi enviado com uma jarra à uma casa de um sábio para buscar vinho.
No caminho, o idiota, por seu próprio descuido, espatifou a jarra contra uma rocha.
Quando chegou a casa do sábio, apresentou-se com a alça da jarra na mão e disse:
"Tal pessoa lhe enviou esta jarra, mas uma pedra horrível a roubou de mim."
Rindo e desejando testar a coerência daquele homem, o sábio lhe perguntou:
"Já que a jarra foi roubada, por que me oferece a alça?
" Não sou tão tolo com as pessoas dizem", o idiota respondeu, e , portanto, trouxe a alça para provar a minha história." ( conto dos Dervixes)

         Muitas pessoas geralmente não consegue distinguir uma tendência oculta nos acontecimentos, o que por si só lhe permitiria usufruir a vida plenamente. Somente alguns que podem perceber esse "fio condutor" são denominados de sábios; quanto ao homem comum, pode-se dizer que está "adormecido," ou é chamado de idiota. (Félix Evas Pequeno é psicólogo e psicanalista). Abraços!