24 de março de 2018

Do equilíbrio do Desejo

               

                Félix Elvas Pequeno

                  O desejo grita: "eu quero!" A sociedade responde: "não podes!" O desejo procura o prazer, a sociedade proclama a ordem. O viver cultural estabelece regras que não são condizentes com a realização de todos os nossos desejos. Temos que aprender um modo equilibrado de existência, em que é preciso contentar-se com uma satisfação parcial do desejo, muitas vezes adiada, e nem sempre existente. Penso que é necessário sermos senhores, e não escravos dos nossos desejos! O desejo está aí para ser desejado e isso não significa que todos os desejos devam ser realizados.
                  Não precisamos sempre dizer: "vou tomar só uma cervejinha" e não parar mais. Nem comer até passar mal. Não precisamos ser amado, até se deixar sufocar e nem amar até tirar o ar do outro. Não precisamos sempre fazer sexo desenfreado e sem afeto. Não precisamos somente usar o corpo malhado e maquiado, para seduzir e sermos desejados. Nem precisamos trabalhar o tempo todo, nem tirar férias o tempo todo. Não precisamos ser felizes ou tristes o tempo todo. A vida está nas oscilações. Nem toda perda dói, nem toda realidade nos angustia.
                 Assim sendo, nosso desejo nunca poderá ser plenamente satisfeito. Isso não significa que não devemos sequer irmos em busca daquilo que desejamos, pois dizer que o nosso desejo não pode ser plenamente satisfeito, não é o mesmo que dizer que o nosso desejo não pode ser parcialmente satisfeito. Então, que nos satisfaçamos parcialmente! Que sejamos não-todos felizes, mas ainda assim, felizes. Que sejamos não-todos leves, mas ainda assim, leves. "Nem tanto ao céu, nem tanto a terra" com os nossos desejos! 

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