30 de outubro de 2017

As Dores no Corpo Originadas pelas Emoções




               Félix Elvas Pequeno     

               É cada vez mais usual no consultório do psicanalista à procura pela causas de dores inexplicáveis pela Medicina, entre tantas: fibromialgia, dores musculoesqueléticas crônicas , enxaqueca, etc... A pessoa após cumprir extenso ritual, passando por diversas especialidades e submetendo-se a incontáveis exames, alguns de alta tecnologia, por fim é convencida de que a sua dor é psíquica, porque todos os exames tradicionais não apontaram nenhuma causa. 

               Surge a primeira questão: o “doente” é encaminhado a um psiquiatra ou psicanalista porque nada de anormal foi encontrado que a explicasse, donde a sua dor é “psíquica”, isto é, fruto da sua imaginação, o que irrita e piora o estado do “doente”, pois ele “sente a dor, que é real”, então além de sentir dor, está ficando “maluco”. Resta procurar o “psi”, que se for o psiquiatra”, vai lhe receitar drogas farmacêuticas para amortecer as dores. Se a escolha recair num “psicanalista”, este usará as técnicas descobertas e desenvolvidas por Freud e pós-freudianos, e buscará no inconsciente tais dores. 
                     
                Temos então outra questão: como o psicanalista, sem realizar nenhum exame clínico, trabalhando com algo abstrato como o inconsciente e com as palavas vai fazê-lo? O psicanalista irá procurar a origem da dor e isso é fundamental. A busca se dará no “mundo do inconsciente”, que nada tem a ver com alma, espírito ou coisa parecida. O inconsciente é real e concreto. É como a película de um filme, onde ficam registradas as emoções da sua vida. O inconsciente simplesmente é! É como o dia nascendo, que não precisa se explicar, basta surgir e você não pode impedi-lo. Você pode tentar: feche todas as janelas, cubra a cabeça, faça tudo o que quiser, mais ainda assim o dia vai surgir. 
                     
                  Também assim é o inconsciente. Sob determinadas condições ele surge e ainda que você não queira percebê-lo, vai aflorar. E se você reprimi-lo muito, vai surgir em forma de dor no corpo. O melhor jeito de se livrar dessa dor, que é real e concreta, é tornar consciente a sua origem e pelo menos, reduzi-la ao que merece. Pois é, o que não conseguimos digerir na mente é vomitado no corpo!  Abraços!

16 de outubro de 2017

Sobre o Gozo e o Prazer.

            
             Félix Elvas Pequeno

             O gozo em termos psicanalíticos não é igual ao prazer. O gozo está além do princípio do prazer. Enquanto o prazer existe nos moldes do equilíbrio e da satisfação, o gozo é desestabilizador, traumático, excessivo: é o prazer freudiano com dor. Sempre arrasta uma lágrima consigo. Há a história do masoquista que tomava banho frio em pleno inverno. Um dia se deu conta que tinha prazer com a água gelada no lombo e de imediato passou a tomar banho quente. O problema do gozo é que ele nunca funciona sem sequelas, é sempre perturbado. 
           Nas sociedades permissivas de hoje, ou seja, oficialmente temos permissão de gozar, ou melhor, de ter prazer, de organizar nossa vida em torno da maneira de obter a máxima satisfação possível, da realização pessoal e assim por diante. Mas disso tudo qual é o resultado fundamental? O resultado intrínseco é que para realmente gozarmos a vida, temos de seguir um sem número de normas e proibições: alimentos gordurosos ou doces, bebidas alcoólicas, ovos, café, condimentos, nada de situações estressantes e até, temos encontrado e visto, café sem cafeína, cerveja sem álcool, cigarro sem nicotina, ambrosia sem açúcar, carne sem gordura e nessa sequência logo entrará na moda atividade sexual sem orgasmo. Nas últimas feiras do livro, p. ex., as obras mais vendidas foram as “Pílulas para gozar uma boa saúde” de conhecido médico e as de autoajuda, tudo que precisamos saber para melhor gozarmos a vida e obras de programação neurolinguística que pretendem nos ensinar como “ chegarmos lá”. Nesse ritmo, numa das próximas feiras é possível que o livro mais procurado seja o que nos ensinará um método, o de obtermos orgasmos de quatro horas de duração sem riscos de enfarto do miocárdio ou acidentes vasculares cerebrais. E sem enlouquecer. 
             O paradoxo é que, se perseguimos o prazer diretamente como uma meta, somos obrigados a nos submeter a diversas condições, como as dietas restritivas já descritas, preparação física intensa e permanente (hoje, em cada quadra temos uma ou duas fitness house) para sermos sexualmente atraentes. Isto resulta que nosso prazer imediato torna a se estragar. Para as mulheres as condições são muito mais restringentes e até cruéis, sádicas mesmo: malhações diárias e intensas, “dieta da folha de alface“, bronzeamentos o ano todo, depilações, massagens, cosméticos caríssimos, penteados, correções plásticas de todo o tipo, ademanes(modos afetados, gestos amaneirados, trejeitos), palavras, atitudes e pensamentos controlados e vigiados, permanentes prontidão e disposição ao orgasmo. E não raras vezes as drogas, o sexo desenfreado e sem afeto, a velocidade automobilística, os esportes radicais acabam em tentativas para preencher esses espaços. Todas vãs.  Enrolamo-nos em nosso GOZO, repetimos a nossa imbecilidade. (Síntese e modificações feitas por Félix Pequeno, em 14/10/2017, do texto de Franklin Cunha). Pensem Nisso! Abraços!

12 de outubro de 2017

Teu relacionamento é capenga e te faz sofrer?

          
               
              Félix Elvas Pequeno
            
              Chega a ser um soco no estômago o que vou escrever em seguida, mas é o que penso. É muito comum vermos amigos, conhecidos ou familiares presos em relacionamentos doentios nos quais se sentem infelizes, usados, desvalorizados e, mesmo assim, permanecem ali, junto à dor, porque, inconscientemente, tem prazer em sofrer! É como se estivessem viciados em se punirem, porque manter um relacionamento a dois nesses termos equivale a sofrer castigos diários. 
               Nenhuma relação é ótima o tempo todo, livre de algumas desavenças, desencontros, pois é assim que os parceiros se reajustam, fortalecendo o que traz ganhos e se libertando do que emperra. Contudo, o extremo oposto também não pode ser tido como saudável, uma vez que ninguém inteligente é capaz de viver com mínima saúde mental, caso passe os dias brigando com a(o) aparceira(o) ou clamando para que sua presença seja notada. Ninguém merece conviver com quem só critica, só reclama, só cobra, só acusa, só chantageia e te enche de culpa; só pensa no seu umbigo sem nada oferecer em troca. 
            Todos merecemos amor de verdade, e não amor fingido! Temos que saber exatamente o tanto que somos e temos e podemos oferecer, para que não nos conformemos com retornos ínfimos, pobres, menosprezíveis. Nesse tipo de relacionamento capenga, não mendigue, sai fora e faz o teu percurso em direção ao parceiro(a) que venha a te amar incondicionalmente, você merece! Somente assim seremos capazes de nos relacionar sem pendências, sem que procuremos no outro o que nos falta e projetando nele ora papai, ora mamãe, ora o filho(a), dentre outros. Os relacionamentos capengas, mais cedo ou mais tarde, irão desmoronar!! Pense nisso!

Zygmunt Bauman - "Homens e mulheres, estão presos numa trincheira sem saber como sair dela, e, o que é ainda mais dramático, sem reconhecer com clareza se querem sair ou permanecer nela".

4 de outubro de 2017

Freud Explica? Não, mas Freud Implica.

                Félix Elvas Pequeno

                A expressão “Freud explica” tornou-se popular entre as pessoas e entre muitos psicanalistas pouco informados. Mas será mesmo que Freud quis explicar? Não, ele quis implicar! Mas quando Freud implica? Quando o psicanalista passa a implicar a pessoa nas suas queixas, compromete-a nos seu sofrimento e a responsabiliza. Parte de uma pergunta simples: "o que você tem a ver com isso que você se queixa? Foi o que perguntou Freud (1905) a Dora, em um caso modelo para o tratamento da histeria, conhecido como o caso Dora. Ela apresentava sintomas de afonia (perda da voz) , dificuldades respiratórias e vivia uma impasse amoroso entre seu pai, a amante dele e o esposo da amante. 
                 Diante de suas queixas, Freud lhe pergunta: "Qual a sua participação na desordem de que se queixa?. Assim também faz o analista perante as queixas, faz uma intervenção que abre a possibilidade de a pessoa trazer para si, subjetivar seu sofrimento, construir um saber sobre ele e inventar uma saída própria.
                 Que tal começar se questionando sobre a sua própria vida, sobre as suas questões e escolhas pessoais. Como você lida com os seus problemas, como tenta evoluir através deles? Você apenas senta, reclama e espera a maré levar? Ou escolhe ser o responsável pelas perdas e ganhos, pelos erros e acertos? Enquanto não percebermos qual é a nossa responsabilidade nos problemas e frustrações pelos quais estamos passando, nada irá mudar!!

2 de outubro de 2017

Não Confundir: Qualidade de Vida com Vida Qualificada

Félix Elvas Pequeno

          Qualidade de vida está nas redes sociais e nas bocas que prometem algo assim: "Tenha qualidade de vida"; "faça academia todos os dias"; "veja que formidável, vou fazer um site para todos terem qualidade de vida"; "faça como eu, perdi tantos quilos mesmo tendo chocolates em casa"; "patrocino corridas e mini maratonas nos finais de semana"; "dormir determinadas horas de sono por dia"; "faça sexo 10 vezes por semana"; "assista as palestras motivacionais"; "trabalhar menos e ter mais contato com a natureza, ufa!... Qualidade de vida tornou-se empobrecedor, é uma forma moralística de influenciar as pessoas. 
           Penso que mais do que essa tão divulgada “qualidade de vida”, podemos buscar uma vida qualificada, escolha pessoal e subjetiva, que vem ao encontro daquilo que muitas vezes não é possível se justificar pelo “saudavelmente” correto. Qualidade de vida é uma tentativa de ditar um bem viver para todas as pessoas. Eu diria que é fundamental substituir o termo ‘qualidade de vida’ por ‘vida qualificada’, no qual o substantivo não é mais ‘qualidade’, e sim a ‘vida’. Ou seja, uma vida qualificada está associada à responsabilidade de inventar uma satisfação pessoal. 
            Sair da tirania do “você tem que”. É uma perspectiva diferente de fazer o que está na moda, aliás a moda é o ridículo sem objeções! Pede ousadia e coragem, uma vez que isso vai implicar você diferenciar-se da "massa". Vida qualificada, portanto, é praticar uma atividade física com um prazer que me vivifica. É escolher o alimento saudável e realmente apreciá-lo. É tocar violão quando estou triste ou quando estou feliz. Escutar uma boa música que gosta. Pescar. Tomar banho numa cachoeira. Assistir a um filme que “me prende”. Apreciar um vinho ou uma cachaça em boa companhia. Debruçar-me sobre um livro que me inspira, ou até mesmo viajar para um lugar diferente. E você, qual a sua escolha? Sem ser pelo “dever”, tampouco pelo o que seria o “certo e garantido”, fazer uma escolha é correr risco e responsabilizar-se!