26 de janeiro de 2017

Quem são e Onde estão os Loucos?

Félix F. Elvas Pequeno

    Na Idade Média, a “loucura” era vista como sendo um fenômeno de possessão demoníaca, em que os indivíduos que apresentavam atitudes tidas como “anormais”, "diferentes", "loucas", eram submetidos à prática de exorcismo pela “Santa Igreja”. Eram enclausurados em manicômios e efetivamente afastados do contexto social “normal”.
         O “diferente", louco, que não apresentasse “boa conduta” era  violentado com repressões e controles, pois os manicômios tinham a função de guardar e conter os “doentes” para que não “contaminassem” aquela sociedade tão normal e “sadia”.
              Atualmente vivemos como autômatos, parecemos ter perdido a espontaneidade, a capacidade de sentir e se expressar direta e criativamente. Nossa existência é programada pelo grande computador que é o nosso sistema sociocultural e, assim sendo, desistimos da liberdade de pensar por nós mesmos e deixamos de fazer nossas próprias escolhas. Estamos perdendo a nossa subjetividade. Não podemos falhar, pois nos é exigida a perfeição e nossas dificuldades são classificadas como “defeitos”. Vivemos uma mentira e ilusão de querer ser mais do que nossas limitações e nossas possibilidades. É nesse sistema alienante e perverso, onde somos estimulados a sermos sempre "felizes" e,  se apresentarmos atitudes fora dos comportamentos “normais” somos vistos como loucos ou desajustados e ficamos “estranhos” à maioria; viramos o "diferente".
             As nossas maneiras peculiares são invalidadas por aqueles indivíduos ditos “sadios”, de tal forma que passamos a ser vistos como "diferentes" das expectativas familiares e sociais, então passamos a ficar fora dos padrões, mal adaptados, inadequados e muitas vezes somos marginalizados. Nesse momento corremos o risco de quebrar nossos vínculos com a sociedade e com a família. Ficamos fracos e sem defesa e acabamos sendo o “bode expiatório”, ou melhor, somos eleitos doentes mentais. Aqueles mais sensíveis não conseguem resistir às pressões exercidas pela desagregação sócio-familiar, então fazem um "surto psicótico", regridem como um bebê que precisa ser cuidado e ter colo: sinal de carências.
          Com esse curto texto, viso trazer a baila a imagem que fazemos dos "diferentes", chamados de"loucos". Muitos de nós ficamos assustados diante deles, talvez porque projetamos neles nossas próprias partes “loucas”, aquelas que não reconhecemos em nós. O “louco” é o espelho onde vemos refletidas nossas próprias inconsistências e atrapalhações. "Nossas partes "psicóticas e sadias" estão indo e vindo em um movimento constante."( W, Bion)
          Os homens que destroem nossa natureza para construir o progresso não estão loucos de verdade? Jovens que se embriagam, se drogam e empinam suas motos pelas ruas ou sobem com elas nas calçadas não estão realmente loucos? Políticos corruptos e perversos que enfiam no bolso o dinheiro do povo e prometem onipotentemente acabar com a fome de todos os brasileiros não são psicopatas? Os países que estão em guerras constantes não são loucos fanáticos? O imperialismo e o sonho americano não é uma loucura real? 
           A assistência precária à saúde, o desemprego, a fome, as pressões psicológicas e as imposições econômicas não geram loucura? A violência urbana, a sociedade contemporânea alienada e perversa não fabrica loucos? A TV que invade nossas casas com programas insensíveis e de baixo nível não  estão praticando loucura? A globalização, que nos deixa sem estabilização na segurança, nas referências, nas decisões e na orientação, não nos empurra para a loucura? Conclua você mesmo: "Quem são e onde estão os loucos de verdade?"
        "É o não-louco que conhece o louco".Por que? Porque o não-louco segue normas e condutas e consegue observar sujeitos que saem fora do eixo." "A loucura será uma ameaça sempre presente numa sociedade que tem horror ao "diferente",que reprime a diversidade do real à uniformidade da ordem racional científica. E que um dia nossa interioridade venha a ser resgatada..."


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