5 de junho de 2015

O Psicanalista como "Triturador de Problemas" (baseado no trabalho apresentado por Roosevelt Cassorla)

Félix F. Elvas Pequeno

  Assim como o aparelho digestivo que recebe o alimento, tritura-o, digere-o e o transforma em energia para o corpo, o psicanalista funciona de forma semelhante: ele, através de seu aparelho mental, recebe os problemas do paciente, tritura-os, digere-os e os transforma em “coisas pensáveis”. Em outras palavras, se o psicanalista possuir uma capacidade de ser continente, ele irá acolher as angústias e necessidades do paciente, contê-las dentro de si o tempo que for necessário para poder metabolizá-las, decodificá-las e encontrar o significado para elas. Então, no momento certo, passa a devolvê-las desintoxicadas ao paciente, por meio da interpretação.
  O paciente vive momentos de desamparo emocional e medos intensos, assim como faz o bebê que tem a sensação de estar só, dependente de alguém que lhe ajude a situar-se emocionalmente, mas tem medo de não encontrar esse alguém para socorrê-lo e acolhê-lo. O paciente tem medo de não encontrar ressonâncias para seus “gritos de socorro”  e nem eco para suas angústias que não consegue pôr em palavras (terror sem nome). Ele tem medo de não haver ninguém neste mundo que compreenda e dê sentido a suas palavras, de forma que se tornem simbolizáveis. Então o analista entra em cena, colocando-se na função de “facilitador suficientemente bom” e “continente ativo”, aceitando o desafio de mergulhar dentro desse mar de angústias do paciente, com o propósito de traduzir em palavras esse mundo cheio de horror e dor.
Se aquilo que o analista coloca em palavras faz eco na mente do paciente, este sente que alguém está ali bem pertinho dele em sintonia emocional, podendo servir de uma “escada” para tirá-lo de um abismo intransponível cheio de solidão.
   Agora vem o mais difícil ao meu ver, isto é, para ser um “triturador de problemas”, o analista precisa desenvolver uma capacidade de se expor ao desconhecido e às incertezas. Ele precisa ser tolerante, paciencioso e, principalmente, renunciar ao seu narcisismo intelectual (que o levaria a ter certeza do que vai acontecer na situação analítica) e fazer um esforço para suportar dúvidas e o “não saber” do encontro analítico, ao que Bion chamou de “capacidade negativa”, indispensável ao psicanalista.
  Se ele for capaz de pensar e não delirar (não ter verdades e teorias prontas), poderá “triturar” os problemas do paciente sem sofrer “indigestão mental”, e sem provocar, conseqüentemente, “indigestão” na mente de seu paciente.