8 de maio de 2015

Impressões Sobre Minha Mãe, no dia das Mães


Félix F. Elvas Pequeno

      Imagino que desde o tempo em que eu estava dentro do útero da minha mãe, começaram a se estabelecer vínculos afetivos entre nós. Fantasio que trocávamos carinhos, brigávamos, eu lhe dava pontapés, mas sempre aquele ventre materno era paciencioso e acolhedor para comigo. Lá dentro, era meu cantinho gostoso, quentinho, aconchegante e protegido. Respirávamos, sentíamos e nos alimentávamos juntos.
      Quando nasci, aconteceu meu primeiro grande susto, a minha primeira separação, e, assim, meu primeiro sentimento de ameaça, pois acabava de entrar em contacto com um mundo externo desconhecido. Vivi um “terror sem nome”, mas lá estava, outra vez, minha mãe, que me pegou com suas mãos mansas, me levou para pertinho de seu peito e me protegeu. Dáva-me de mamar, e juntamente com o leite que brotava de seu peito, me passava amor, carinho e doçura.
      Desde bebê, formávamos um par - mãe e bebê - e dessa relação é que se foi desenhando a minha vida mental. Naquela época, eu enfiava em minha mãe ansiedades e fantasias de terror, pois eu ainda não era capaz de conter sozinho meu pânico, principalmente, diante da eminência de uma morte concreta.
Mais uma vez, minha mãe me abraçava carinhosamente e me dizia coisas que eu não entendia, mas seu tom de voz fazia com que me sentisse aplacado em meu desespero. Isso tudo era feito espontaneamente e com amor. Essa capacidade de minha mãe de acolher minhas primeiras angústias e ansiedades, talvez tenha estimulado em mim autoconfiança e uma relação com o mundo menos ameaçadora, mais amigável.
    Hoje, não me é possível relembrar dessas primeiras experiências emocionais, mas fica a sensação e a impressão de ter sido acalentado por aquelas mãos ternas, aqueles seios quentes e pelos beijos doces.
      Claro que minha mãe não era perfeita, aliás, ninguém o é. É óbvio que existia o reverso da medalha, isto é, havia momentos em que minha mãe, por várias razões e limitações emocionais, não era capaz de conter completamente minhas solicitações. Sadia ou louca, mas com garra e amor, me deu a luz, me preparou para a vida. Sem seus cuidados, talvez não tivesse sobrevivido àquela turbulência emocional.
    Penso que hoje, talvez desejando fazer alguma reparação e, num gesto de gratidão, esteja querendo inverter as funções e pô-la no meu colo, ser continente e paciencioso com ela, acolhê-la com respeito e profundo amor. Tenho certeza que minha mãe, apesar de suas limitações, foi a mãe que pôde ser.

“...De noite, alta noite, quando eu já  dormia |  Sonhando esses sonhos de anjos dos céus, | Quem é que meus lábios dormentes roçava, | Qual anjo da guarda, qual sopro de Deus? | Minha mãe...” (Casemiro de Abreu).

Um comentário:

  1. Que texto acalentador...parabéns..."apesar de suas limitações, foi a mãe que pôde ser"

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