20 de maio de 2015

O Olho Analítico

Félix F. Elvas Pequeno


Entre outros olhos,
Há  o “olho científico”,
O “olho religioso”,
E “olho analítico”

O “olho analítico”,
É um “olho artístico”,
Calcado não somente
No saber psicanalítico.
Não é crítico.
É doce e amoroso,
Sábio, paciencioso,
Não rigoroso.

Ele vê além das maquiagens.
É profundo.
E vai lá no fundo do inconsciente.
Descodifica e tenta descobrir o verdadeiro eu.

É todo intuição
Que brota lá do coração,
E faz pela mente do paciente,
Ora vôos rasantes
Ora vôos altos
Com refinada percepção.

O “olho analítico”
É como “facho de escuridão”.
É como céu à noite
Que nos permite ver as estrelas,
Que já existem no firmamento,
Mas que estavam obscuras aos nossos olhos,
À luz do dia.

Ele é cheio de vivacidade,
E capta com claridade
O mundo inconsciente.
Na escuridão da mente,
Descobre não somente bruxas,
Monstros e demônios,
Mas sobretudo obras de arte incandescentes.

É um olhar materno,
Matreiro,
Meigo e amoroso.
Repleto de bondade
Vem de lá de dentro,
De um espaço interior multicolorido,
Que capta sutilizas e nuanças de cores,
Ora cores frias e esmaecidas,
Ora cores brilhantes e aquecidas.

É o olhar do cegos e dos poetas,
Que enxergam com terceiro olho,
Onde o que é conhecido e esquecido,
Passa a ser reconhecido.

O “olho analítico”
Não é exclusivo dos psicanalistas,
Mas de todos que possam “cegar-se” à razão,
E possam brincar com as idéias e a intuição,
Fazendo belas “transformações” e evoluções,
Sem memórias, sem desejos e sem compreensão.

Ele olha para além das máscaras,
Que estão grudadas nos rostos,
E nos aproxima da beleza original,
Para que possamos beijá-la,
E agraciarmo-nos com ela.
                                                                   
E então, quebramos os discursos
Que nos foram mal-ditos...

8 de maio de 2015

Impressões Sobre Minha Mãe, no dia das Mães


Félix F. Elvas Pequeno

      Imagino que desde o tempo em que eu estava dentro do útero da minha mãe, começaram a se estabelecer vínculos afetivos entre nós. Fantasio que trocávamos carinhos, brigávamos, eu lhe dava pontapés, mas sempre aquele ventre materno era paciencioso e acolhedor para comigo. Lá dentro, era meu cantinho gostoso, quentinho, aconchegante e protegido. Respirávamos, sentíamos e nos alimentávamos juntos.
      Quando nasci, aconteceu meu primeiro grande susto, a minha primeira separação, e, assim, meu primeiro sentimento de ameaça, pois acabava de entrar em contacto com um mundo externo desconhecido. Vivi um “terror sem nome”, mas lá estava, outra vez, minha mãe, que me pegou com suas mãos mansas, me levou para pertinho de seu peito e me protegeu. Dáva-me de mamar, e juntamente com o leite que brotava de seu peito, me passava amor, carinho e doçura.
      Desde bebê, formávamos um par - mãe e bebê - e dessa relação é que se foi desenhando a minha vida mental. Naquela época, eu enfiava em minha mãe ansiedades e fantasias de terror, pois eu ainda não era capaz de conter sozinho meu pânico, principalmente, diante da eminência de uma morte concreta.
Mais uma vez, minha mãe me abraçava carinhosamente e me dizia coisas que eu não entendia, mas seu tom de voz fazia com que me sentisse aplacado em meu desespero. Isso tudo era feito espontaneamente e com amor. Essa capacidade de minha mãe de acolher minhas primeiras angústias e ansiedades, talvez tenha estimulado em mim autoconfiança e uma relação com o mundo menos ameaçadora, mais amigável.
    Hoje, não me é possível relembrar dessas primeiras experiências emocionais, mas fica a sensação e a impressão de ter sido acalentado por aquelas mãos ternas, aqueles seios quentes e pelos beijos doces.
      Claro que minha mãe não era perfeita, aliás, ninguém o é. É óbvio que existia o reverso da medalha, isto é, havia momentos em que minha mãe, por várias razões e limitações emocionais, não era capaz de conter completamente minhas solicitações. Sadia ou louca, mas com garra e amor, me deu a luz, me preparou para a vida. Sem seus cuidados, talvez não tivesse sobrevivido àquela turbulência emocional.
    Penso que hoje, talvez desejando fazer alguma reparação e, num gesto de gratidão, esteja querendo inverter as funções e pô-la no meu colo, ser continente e paciencioso com ela, acolhê-la com respeito e profundo amor. Tenho certeza que minha mãe, apesar de suas limitações, foi a mãe que pôde ser.

“...De noite, alta noite, quando eu já  dormia |  Sonhando esses sonhos de anjos dos céus, | Quem é que meus lábios dormentes roçava, | Qual anjo da guarda, qual sopro de Deus? | Minha mãe...” (Casemiro de Abreu).

4 de maio de 2015

Obesidade: Causas Psíquicas

Félix F. Elvas Pequeno

                  Estudos realizados mostram que a maioria dos casos de obesidade são devido a problemas emocionais, problemas de cabeça mesmo. São as pessoas que caem de boca na comida porque estão muito ansiosas, carentes, sentindo-se vazias internamente e muito lesadas na sua auto-estima.
                  A obesidade derruba a auto-estima, provoca constrangimentos, inibições e sentimentos de menos-valia. Enfim, complica a vida de muitas pessoas, deixando-as limitadas e deprimidas.
            Os gordos tentam emagrecer fisicamente: fazem exercícios físicos exaustivos, freqüentam “spa”, malham freneticamente em academias, se submetem a dietas rigorosas, às vezes, frustrantes. Correm atrás de soluções externas para acabar com a gordura, o que ajuda, mas não resolve definitivamente sua obesidade, pois as causas são psíquicas.
            Obesos são altamente gulosos, pois inconscientemente estão fixados na fase oral do desenvolvimento do “Eu”, onde a boca constitui a principal fonte de prazer. A fase oral começa com o nascimento e termina normalmente com o desmame. Há aqueles que não conseguem atravessar essa fase e ficam “amarrados” nela. Não é que a pessoa não se desenvolva, cresça para as fases seguintes. Ela passa, sim, para as demais, porém vai carregando consigo traços dessa fase anterior. Por isso, dizemos que ela se fixa em tal período do desenvolvimento do “Eu”.
            Assim, as pessoas fixadas nessa fase oral tendem a manter a boca como sua região de excitação e, inconscientemente, tendem a se fixar no seio materno como, também, a depender dele. Conseqüentemente, tais pessoas buscam na comida um substituto inconsciente daquele seio materno. Em outras palavras, os gordos são pessoas que cresceram de tamanho, ficaram aquela “coisona”, mas no fundo estão regredidos emocionalmente como um bebê insaciável e dependente da mãe-seio (comidas engordativas).
             O gordo precisa é emagrecer sua mente, abster-se de suas idéias onipotentes, fazer uma dieta mental para então emagrecer fisicamente. Como? Conhecendo-se melhor e tomando consciência dos aspectos inconscientes que o levam à obesidade. Quais aspectos seriam esses? Dentre vários, cito: voracidade excessiva (ânsia impetuosa e insaciável, que excede aquilo de que a pessoa necessita), impulsos autodestrutivos, fantasias onipotentes, carência afetiva, repressão das emoções e sentimentos de inferioridade.
             O que o gordo não sabe é que ele está tomado por um apetite muito grande, não de comer, mas sim de viver, de amar e ser amado. Ele tem fome de uma vida plena e feliz. No fundo, o obeso é uma personalidade rica, bela e com muitos recursos internos. São pessoas grandiosas em qualidades e bondades internas. Mas, infelizmente, o gordo não tem consciência desses recursos internos, buscando-os em comidas “engordativas”. Só lhe interessa o mundo quente de calorias elevadas, quem sabe, como substituto de caloria humana, afeto quente e caloroso.
            O obeso precisa tomar consciência de suas possibilidades e limitações; e conter dentro de si seu bebê voraz, movido, este, por impulso de morte (que muitas vezes vem embrulhado em papel de presente, como comidas deliciosas, gostosas, bonitas, prazerosas, apetitosas, mas sem substâncias nutricionais), entupindo-lhe de gordura que pode provocar enfermidades como infarto, hipertensão, dentre outras.