18 de abril de 2015

Ser Só


Félix F. Elvas Pequeno

      Nós vivemos em comunidade, em família. Somos casados, temos filhos, enfim, estamos o tempo todo interagindo uns com os outros, mas somos sós. Só, no sentido de sermos separados mentalmente, de sermos diferenciados um do outro. Estamos juntos, mas Um não é extensão do Outro. Cada um tem sua própria identidade que deve ser respeitada, não é posse do outro. 
      Sentir-se separado é angustiante, dá medo, mas é inevitável para o crescimento emocional da pessoa. Ser só é fundamental para poder se envolver com o outro. É saber expandir-se em direção ao outro, e depois se retrair em direção a si mesmo. Para eu poder me envolver com o outro, tenho, antes, que reconhecer que sou só, separado, distinto do outro, um ser singular.
      A angústia de separação é um processo normal e está presente em nosso dia-a-dia. Quando aprendemos a “amansar” a angústia de separarmo-nos do outro, ela então se torna fonte do desejo ardente de viver. Amansar a solidão não é acabar com a angústia, mas é encará-la e utilizá-la a serviço da vida. Quero dizer, sentir-se só significa tomar consciência de que se é um ser único, que o outro também é único, e a relação que se venha a manter consigo mesmo e com o outro pode vir a ser rica e privilegiada. Ser só é ter um mundo mental próprio e independente do outro.
      Porém, quando a angústia de separação é indomável e excessiva, ela é experienciada como terror sem nome e a sensação é de morte iminente. A pessoa se sente num estado de abandono sem fim. Sentindo-se invadida por essa angústia indomável, a pessoa não consegue se sentir separada mentalmente da outra. Fica dependente, grudada, misturada e confundida com o outro. Os seus relacionamentos ficam doentios e a pessoa vive um total estado de indiferenciação: ninguém sabe quem é quem. Viver junto, sem estar separado emocionalmente, torna-se torturante, entediante e aprisionante. Pode ocorrer perda de identidade que é a causa de muitas doenças físicas e mentais. 
      A maturidade emocional vem quando conseguimos evoluir para um estágio de individualização: Eu sou eu e Você é você. Quando conseguimos ser só, então os nossos relacionamentos ficam mais sadios e podemos fluir livremente para o amor.

“Eu faço minhas coisas, e você faz as suas,
Não estou nesse mundo para viver de acordo com as suas expectativas
E você não está nesse mundo para viver de acordo com as minhas
Você é você, eu sou eu
E se por acaso nos encontrarmos, é lindo.
Se não, nada há a fazer.”    

 (F.Perls)

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