2 de abril de 2015

A História de “Zé Dividido”

Félix F. Elvas Pequeno

   Era uma vez um homem que “enxergava” a si mesmo, as pessoas e o mundo somente com um olho. Sua visão era parcializada. Ele era pouco compreensivo com a “mãe natureza”, imaginava que os frutos que ela lhe dava eram somente maravilhosos ou somente muito estragados. Para Zé Dividido, não havia meio termo: ou tudo era ótimo ou tudo era péssimo. Era tudo ou nada, oito ou oitenta. Não existia o amar alguém e também odiá-lo. Zé via o mundo somente preto ou branco, não havia nuanças de cores. Ele não aceitava sentir-se frágil, às vezes, e, noutras, forte. Era muito exigente consigo mesmo e com os outros. Sonhava em ser perfeito. Tinha o desejo (onipotente) de ter seus bolsos cheios de verdades e certezas. Ter dúvidas, jamais. Achava-se muito esperto, e quando falhava, se sentia totalmente idiota. Ele somente queria ser um vencedor. Não suportava lidar com separações e perdas. Esforçava-se ao máximo para ser somente muito poderoso, caso contrário seria um zé-ninguém fracassado.
      E assim ele ia levando sua vida, hipnotizado pelos extremos. Seu “eu” estava todo dividido, espatifado em partículas. Não havia integridade. Sentia-se o tempo todo perseguido e injustiçado. Zé desejava ser só de um jeito e praguejava ter ora uma "parte muito boa",ora outra "parte muito ruim".  
      Um belo dia, Zé foi atravessar uma avenida, mas ficou cismado. Parou bem no meio dela, divididíssimo, e se perguntou: “Vou para a calçada que somente faz sombra, ou volto para a calçada que somente faz sol? Para que lado eu vou?”. Repentinamente, veio um automóvel e o atropelou. Acertou bem em cheio, no meio dele. Então, partiu-se em duas partes: “parte muito boa”, que foi parar na calçada que somente fazia sombra, e “parte muito ruim”, que foi parar na calçada que somente fazia sol. Desse dia em diante, cada “parte” seguiu sozinha seu caminho pela vida.
  Passaram-se muitos anos, quando, por uma “coincidência”, “parte muito boa” e “parte muito ruim” encontraram-se num “beco sem saída”. Ambas olharam-se nos olhos e, emocionadas, disseram ao mesmo tempo: -“Puxa, como foi bom te reencontrar. Que saudades! Fiquei esse tempo todo caminhando sozinha pela vida, me indagando, e descobri, aprendendo com as experiências emocionais doloridas, que você me faz muita falta. Você me completa. Não consigo viver sem você.” Abraçaram-se, agraciaram-se, fizeram as pazes e resolveram formar um par. As duas partes se aproximaram uma da outra, e ficaram mais integradas. Daí para frente, caminharam juntas pela estrada afora, de mãos dadas.
    Desse dia em diante, Zé Dividido reconheceu que era simplesmente gente; que ora podia errar, ora acertar; ora perder, ora ganhar. Passou a ser mais tolerante consigo, com as pessoas e com a vida. Começou a admitir que as pessoas as quais amava também podia odiá-las. Aprendeu que a perfeição é uma maldição que maltrata o coração. Que não há verdades nem certezas. Passou a ter dúvidas. Percebeu que a sua vida e o mundo continuarão a se movimentar e a se modificar, às vezes com amor, alegria ou felicidade, e às vezes com turbulência, ódio, raiva ou infelicidade. Enfim, descobriu que ele e as pessoas não são somente de um jeito; que há, na mesma moeda, dois lados; que “a mão que afaga é a mesma que apedreja”. Mais humilde idealizava menos, adquirindo o reconhecimento de si e das outras pessoas por inteiro. Zé também descobriu e aceitou que tinha um corpo com muitas partes, e não só duas, um corpo com mil almas...
      Zé abriu o outro olho, e enxergou a si mesmo e a “mãe natureza” com os dois olhos, isto é, com uma visão globalizada. O mundo ficou colorido. Sua alma tornou-se aberta, amorosa, rica e bela, uma pessoa nova, outra. Passou a reconhecer suas limitações e suas possibilidades diante da vida.
      A história termina aqui. Entrou por uma porta e saiu pela outra. Quem quiser que continue ou conte outra.

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