17 de março de 2015

O Trabalho Artístico do Psicanalista

Félix F. Elvas Pequeno

      Este artigo é apenas um jeito de ver a psicanálise como expressão artística.
  O psicanalista faz interpretações e construções calcadas no saber psicanalítico, mas, principalmente, usa de sua sensibilidade, criatividade e, sobretudo, de sua intuição, que é a própria manifestação artística. Ele, assim como o artista criador, vive emoções multicoloridas quando realiza seu trabalho.
      O artista, bem como o psicanalista, cria. Criar é tirar do “nada”, mas esse “nada” é algo que não é perceptível num olhar superficial, requer um olhar profundo.
    O psicanalista vai escarafunchando, como um arqueólogo, o mundo inconsciente do paciente, e descobre que lá dentro não há somente escuridão, monstros, demônios perseguidores ou bruxas. Há, sobretudo, claridade, anjos, um tesouro rico em qualidades, bondades, capacidades. Há obras de arte preciosas, adormecidas, que podem ser acordadas.
    O psicanalista capta o sofrimento do paciente com seu coração materno, amoroso, acolhedor e paciencioso. A dupla, paciente-analista, vai caminhando por dentro dos seus inconscientes, viajando pelas paisagens multicoloridas, sem memórias e sem pressa. Ele fica em comunhão com o paciente e formam um par que faz vôos pelo universo inquieto de suas mentes, ora vôos  rasantes, ora vôos altos.
  O paciente comunica seu mundo mental ao psicanalista, experienciando-o e revivendo-o na relação transferencial que se estabelece entre o par. Por transferência, entenda-se uma relação emocional da dupla, vivida no presente, no “aqui-e-agora” do encontro analítico. O psicanalista, permitindo-se tocar pelos seus sentimentos, comunica ao paciente sua compreensão desta relação, com a proposta de facilitar mudanças na mente do paciente. Este, por sua vez, expressa sua história de vida com suas múltiplas “transformações” e o psicanalista vai se deixando tomar lugar das imagens originais (pai, mãe, irmãos) do paciente. À medida que este sente que é acolhido pelo seu analista, vai deixando fluir livremente seus sentimentos e conflitos, que estão sendo agora revividos com as mesmas peculiaridades que havia na situação original. O analista amplia seu espaço interno para que as emoções primitivas do paciente encontrem ressonância e sejam traduzidas em palavras que tenham significados emocionais para o paciente. O que o psicanalista põe em palavras faz eco para o paciente e o assegura de que seu parceiro está em sintonia emocional com ele. A comunicação entre ambos é feita de inconsciente para inconsciente. É abrindo este espaço interno de objetos brilhantes e coloridos que leva o analista a ser um artista em seu trabalho, assim como o pintor quando pinta, o escultor quando esculpe e o músico quando compõe.
      O analista, mantendo sua unidade psíquica, permite que as emoções do paciente entrem em seu mundo mental e se espalhem como tintas que vão deslizando e colorindo seu espaço interior.
    Juntos, analista e paciente, vão lapidando o diamante bruto que já existe dentro da mente do paciente, talvez, até então, despercebido. Cada sessão com o mesmo paciente é um novo encontro artístico, onde se produzem obras de arte belíssimas.
      À medida que o analista vai evoluindo, principalmente com a ajuda de sua análise pessoal, ele vai abrindo espaço para que se torne criativo, verdadeiro e amoroso no seu trabalho. A análise pessoal bem sucedida pode provocar mais limpidez de percepção, e, principalmente, o autoconhecimento, que é fundamental para criar um terceiro olho, o “olho analítico”.
    Ambos, artista e psicanalista, desenvolvem um trabalho artesanal, onde, através de um mergulho profundo para dentro de si, resgatam suas próprias riquezas internas, e as oferecem, um, o artista, ao seu expectador, o outro, o psicanalista, ao seu paciente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário