6 de fevereiro de 2015

O Normopata

Félix F. Elvas Pequeno

         Era um homem como a maioria dos homens: inutilmente normal, “normopata”.
         Era frio, contraído, calculista e arrogante. Cara amarrada, ensimesmado e “paranóico”. Cheio de idéias bem-arrumadas e limitadas. Pensamento concreto, sem subjetividade. Face pálida, olhar de aço e severo, sorriso amarelo e furtivo.
         Envolvia-se nas conversas, sempre querendo sair-se vencedor. Posicionava-se onipotentemente; sua fala era estudada e sedutora. Não tinha espontaneidade nem criatividade. Permitia-se programar pelos regulamentos do sistema. Obedecia cegamente sem questionar, pois precisava ser amado e aplaudido. Achava que ser normal era fazer tudo igual aos outros, tudo dentro dos padrões e das regras. Perfeccionista. Não podia diferenciar-se, pois estava misturado aos outros, massificado. Não tinha opinião própria, perdera sua identidade. Esquecia-se de seus desejos e realizava os dos outros. Tinha dentro de si um “super-eu” severo que o reprimia. Não podia mostrar seus verdadeiros sentimentos, tinha medo de ser punido.
           Seus beijos eram gelados. Seus abraços, frouxos e breves. Às vezes, dava algumas gargalhadas histéricas, na tentativa de ser alvo de atenção. Pensava grande: tinha a doença do trabalho, trampava quinze horas por dia para ter sua casona e seu carro importado. Ficou  estressado e escravo do trabalho. Queria ser um homem de sucesso. Esforçava-se ao máximo para ser competente e chegar à excelência. Fazia tudo o que era desejado pelo sistema que o transformava em objeto, eliminando seu pensar e agir subjetivo. Vivia como se estivesse numa corrida sem fim. Ritmo intenso. Alta velocidade. Receitas rápidas. Pratos prontos.
          Ele tinha medo do novo, do desconhecido. Era estereotipado – agia do mesmo modo quando as circunstâncias mudavam - e insosso. Esforçava-se ao máximo para ficar inocente, fugindo da raia e não se comprometendo com a verdade.  Às vezes, ele tinha seus próprios desejos e perguntava ao “super-eu”: “Posso?” Ao que este respondia: “Não, nem pense nisso. É contra os regulamentos. Não se atreva”.
     Por outro lado, sua subjetividade o instigava, dizendo: “Seja criativo e espontâneo. Tenha qualidade de vida. Deixe que os outros se “queimem e brinquem com seu fogo”. Sugue a essência da vida e dê asas às suas fantasias. Aventure-se, viva o novo, o desconhecido.” Mas a voz do “super-eu” vencia em sua mente, dizendo num tom ameaçador: “Não dê ouvidos a ela (sua subjetividade) pois é tentadora e contrária às regras. Não se rebele, pois ficará cheio de culpa. Seja “normal” e inocente. Só assim será um vencedor e chegará à excelência.”
         Ficou sem mente, só havia um cérebro programado. O sistema fazia com ele o jogo das ilusões, e ele ia perdendo cada vez mais sua sensibilidade. Achava normal mentir, controlar as pessoas, usar meias-verdades’, fazer vista grossa. Tornou-se um homem politicamente correto.
          Virou um autômato, um homem-máquina.
     Que pena, nunca mais teve desejos nem sonhos. Sua alma adoeceu e seu coração ficou petrificado. Na sua vida não acontecia nada de emocionante, nada de extraordinário, todos os seus dias eram iguais, sem alegria, sem questionamentos, sem cores, sem paixão. Morreu mentalmente.

2 comentários:

  1. Amo a musica, acredito na melhoria do planeta, confio em que nem tudo está perdido, creio na bondade do ser humano e intuo que a loucura é fundamental. Agora só me faltam carneiros e cabras pastando solenes no meu jardim. Viver é ótimo.
    Elis Regina

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  2. Dentre os vários textos que já li do psicólogo, psicoterapeuta e psicanalista - Félix Pequeno, O Normopata, é a meu ver, o mais revolucionário, lúcido e coerente. O texto analisa de forma clara como funciona o domínio do sistema econômico do poder do capital sobre a vida dos cidadãos e cidadãs comuns. É atualíssimo e nos remete à reflexão histórica do que temos vivido há muito tempo no mundo ocidental.

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