28 de fevereiro de 2015

Cegueira Mental e Verdade

Félix F. Elvas Pequeno

       No dia 03/12/94, participei da palestra sobre “Verdade e Mentira em Psicanálise: O mito edípico e o mecanismo de fazer vista grossa”, proferida pelo psicanalista Roosevelt Cassorla, promovida pelo Centro de Estudos de Psicanálise de Moji-Mirim (CEPsi). A fala de Roosevelt me tocou, não sei se pelas palavras doces e sábias do palestrante e/ou pela minha entrega à experiência emocional daquele momento.                                                                                            
    Venho nesse artigo passar ao leitor algumas idéias que estão vivas dentro de minha mente agora. Estou pensando com meus botões, como é que nós fazemos “vista grossa” (não querer enxergar com os olhos da mente) nas nossas relações com a família, com o trabalho, com as  instituições,  com a sociedade e principalmente na nossa relação conosco mesmo. Começando por nós, psicoterapeutas. Nossos pacientes vêm à psicoterapia buscar alívio para seus problemas, mas ficam incomodados, ameaçados ao escutar sobre suas verdades. Às vezes, ameaçam abandonar o tratamento e o psicoterapeuta é mobilizado pelo receio de perder esse paciente, e não pode trabalhar os sentimentos que tal ameaça lhe mobiliza (contra-transferência). A dupla psicoterapeuta - paciente fica ameaçada, faz “vista grossa” aos sentimentos que surgem no encontro. Ficam os dois num “faz de conta” ou numa folia a dois. Nas instituições psiquiátricas ocorre algo semelhante: o técnico de saúde mental geralmente entra em conluio inconsciente com a “filosofia” filicida da Instituição-mãe, pelo medo de ser demitido, e se cega.
A dupla Instituição (mãe) e o técnico (filho) mortificam o Eu do paciente, ou em casos extremos, fazem ocorrer algo parecido com a tragédia edípica. Também ocorre da Instituição praticar filicídio com os técnicos e estes reagirem tentando praticar matricídio com a Instituição-mãe.
    Estes mecanismos de cegueira mental, “vista grossa” e mentiras, ocorrem não somente em Instituições Psiquiátricas, mas também em empresas, escolas, governos e outras instituições, onde haja relação humana.. Acho que cada leitor pode ir se indagando a respeito das questões aqui levantadas.
  No seio familiar mentimos ou não queremos nos dar conta das relações atrapalhadas pais-filhos. Por exemplo: um dos pais capta que seu filho adolescente já é capaz de se cuidar sozinho numa festa de jovens, mas às vezes, um deles (pai ou mãe) inconscientemente, repete conselhos controladores: “Cuidado com drogas, use camisinha, se esquive das más companhias” etc. Também acontece o contrário, quando os pais “sacam” que seu filho usa drogas, mas ficam cegos ou fazem “vista grossa” diante da verdade. Encarar a realidade é doloroso, mas não há crescimento sem dor. Portanto, evitar a verdade pode parecer seguro e confortável, mas é o mesmo que arrancar os próprios olhos.
    Socialmente, também fazemos “vista grossa”, mentimos para nós mesmos, quando nos encontramos com amigos, e estando chateados, tristes ou ressentidos, recebemos aquele cumprimento: “Tudo bem?”, e respondemos: vagamente:“Tudo bem, e você?”. Mentimos para nós e para o outro. Os dois se esquivam. Não temos tempo para conversar. Quando não conversamos, ficamos encapsulados no nosso autismo, nos defendendo do contato afetivo-emocional.
    Assim, mentindo, ficamos “de bem”, “numa boa” com os nossos pacientes, com as instituições, com os filhos, com os amigos, quando fechamos os olhos da mente à verdade. Lembro-me de quando Dr.Bion dizia ao Dr. José Américo Junqueira Mattos, quando este fazia análise pessoal com aquele:
“... assim também ocorre aos que procuram a Verdade, ficam expostos, vulneráveis... daí o medo que ela inspira ao senhor e a todos que a buscam...”
  Penso que o contrário de “vista grossa” é a verdade e a responsabilidade Nós, psicoterapeutas e técnicos de saúde mental, podemos contribuir com o leitor de jornais e revistas tentando levar a nossa compreensão da mente humana à população. Acho que aplicar o saber psicanalítico em Instituições, escolas, empresas e na política é uma maneira de estimular o crescimento emocional do nosso país-bebê e ajudá-lo a sair do estado primitivo em que se encontra. Nossos políticos e governantes são “experts” em mentiras e “vista grossa”, imaginando enganar ao povo. Que ilusão! Pois, felizmente, nosso povo está mais consciente de suas propostas onipotentes. E há aqueles que ainda fazem “vista grossa” aos discursos delirantes dos políticos, negando suas limitações. Alguns psicanalistas “famosos” se resguardam em seus consultórios, entre quatro paredes, fazendo “vista grossa” à realidade externa. Não conseguem discriminar o contexto analítico do social. Psicanálise é vida, é tê-la não somente em gabinetes, mas vinculá-la ao meio sociocultural. Tais psicanalistas ficam calados e, sobretudo arrogantes, driblando seus verdadeiros sentimentos e sua própria formação psicanalítica.
Freud, há muitas décadas atrás, já escrevia artigos tentando usar do seu saber para compreender os mistérios dos romances, da arte, da cultura e da religião. Já recebi algumas críticas de psicanalistas que diziam: “Você escreve artigos, textos e posta-os nas redes sociais, ficando se expondo publicamente. O que seus pacientes vão pensar de você?”. Mas há outros como Rubem Alves, Jurandir Freire, Waldemar Zusman, que, nos momentos de folga de seus gabinetes, escrevem artigos  e dividem seu saber psicanalítico com os leitores.
    Finalizando, penso que a vida se faz com verdades e responsabilidade pelo que somos e pelo o que fazemos, apostando na nossa ousadia e sustentando-a.  "Todos nós odiamos a tempestade que implica o ato de rever nossas visões; é muito perturbador pensar que poderíamos chegar a mudar a tal ponto e sentirmo-nos compelidos a mudar de parceiro ou profissão ou país ou sociedade. Assim a pressão para dizer “daqui não passo” estabelece uma resistência ao aprendizado.” Bion, “Conversando com Bion” - Editora Imago. O que escrevo aqui é meu jeito de pensar singular e não genérico. Os poetas, os pintores, os escritores, os compositores não ficam cegos aos seus sentimentos e desejos, são essencialmente verdadeiros. Eles enxergam com os olhos da mente, assim como os cegos, e deixam suas criações maravilhosas tocarem nossos sentimentos mais profundos.

6 de fevereiro de 2015

O Normopata

Félix F. Elvas Pequeno

         Era um homem como a maioria dos homens: inutilmente normal, “normopata”.
         Era frio, contraído, calculista e arrogante. Cara amarrada, ensimesmado e “paranóico”. Cheio de idéias bem-arrumadas e limitadas. Pensamento concreto, sem subjetividade. Face pálida, olhar de aço e severo, sorriso amarelo e furtivo.
         Envolvia-se nas conversas, sempre querendo sair-se vencedor. Posicionava-se onipotentemente; sua fala era estudada e sedutora. Não tinha espontaneidade nem criatividade. Permitia-se programar pelos regulamentos do sistema. Obedecia cegamente sem questionar, pois precisava ser amado e aplaudido. Achava que ser normal era fazer tudo igual aos outros, tudo dentro dos padrões e das regras. Perfeccionista. Não podia diferenciar-se, pois estava misturado aos outros, massificado. Não tinha opinião própria, perdera sua identidade. Esquecia-se de seus desejos e realizava os dos outros. Tinha dentro de si um “super-eu” severo que o reprimia. Não podia mostrar seus verdadeiros sentimentos, tinha medo de ser punido.
           Seus beijos eram gelados. Seus abraços, frouxos e breves. Às vezes, dava algumas gargalhadas histéricas, na tentativa de ser alvo de atenção. Pensava grande: tinha a doença do trabalho, trampava quinze horas por dia para ter sua casona e seu carro importado. Ficou  estressado e escravo do trabalho. Queria ser um homem de sucesso. Esforçava-se ao máximo para ser competente e chegar à excelência. Fazia tudo o que era desejado pelo sistema que o transformava em objeto, eliminando seu pensar e agir subjetivo. Vivia como se estivesse numa corrida sem fim. Ritmo intenso. Alta velocidade. Receitas rápidas. Pratos prontos.
          Ele tinha medo do novo, do desconhecido. Era estereotipado – agia do mesmo modo quando as circunstâncias mudavam - e insosso. Esforçava-se ao máximo para ficar inocente, fugindo da raia e não se comprometendo com a verdade.  Às vezes, ele tinha seus próprios desejos e perguntava ao “super-eu”: “Posso?” Ao que este respondia: “Não, nem pense nisso. É contra os regulamentos. Não se atreva”.
     Por outro lado, sua subjetividade o instigava, dizendo: “Seja criativo e espontâneo. Tenha qualidade de vida. Deixe que os outros se “queimem e brinquem com seu fogo”. Sugue a essência da vida e dê asas às suas fantasias. Aventure-se, viva o novo, o desconhecido.” Mas a voz do “super-eu” vencia em sua mente, dizendo num tom ameaçador: “Não dê ouvidos a ela (sua subjetividade) pois é tentadora e contrária às regras. Não se rebele, pois ficará cheio de culpa. Seja “normal” e inocente. Só assim será um vencedor e chegará à excelência.”
         Ficou sem mente, só havia um cérebro programado. O sistema fazia com ele o jogo das ilusões, e ele ia perdendo cada vez mais sua sensibilidade. Achava normal mentir, controlar as pessoas, usar meias-verdades’, fazer vista grossa. Tornou-se um homem politicamente correto.
          Virou um autômato, um homem-máquina.
     Que pena, nunca mais teve desejos nem sonhos. Sua alma adoeceu e seu coração ficou petrificado. Na sua vida não acontecia nada de emocionante, nada de extraordinário, todos os seus dias eram iguais, sem alegria, sem questionamentos, sem cores, sem paixão. Morreu mentalmente.