22 de janeiro de 2015

Psicanálise e Neurociência

Félix F. Elvas Pequeno

          Os progressos da neurociência nada ensinam sobre o funcionamento do inconsciente descoberto por Freud. Não é possível reduzir os sentimentos, desejos e conflitos aos comandos cerebrais. A neurociência não consegue explicar as interferências do inconsciente nas atitudes das pessoas. O inconsciente não pode ser diluído no cérebro e/ou anestesiado.
          Hoje, doenças como a esquizofrenia, o transtorno bipolar, o transtorno de pânico e a depressão são tratadas com drogas de última geração. Claro que os estudos mostram que os anti-psicóticos e antidepressivos ajudam em muito no tratamento das patologias orgânicas. Mas, somente com as drogas, os pacientes não conseguem ter compreensão interna da dinâmica do seu mundo mental. Será que o desenvolvimento da neurociência irá, com suas drogas, solucionar os nossos conflitos inconscientes? Penso que não. A neurociência não irá explicar as relações homem-mulher ou qualquer outra relação que temos ou venhamos a ter em nossa vida. Não nos ensina a amar, ter tesão ou gozar.
          A psicanálise não tem a pretensão de resolver os conflitos psíquicos num passe de mágica ou num “lava-rápido”. Ela é incompatível com propostas mágicas e milagrosas, e incompetente para deixar as pessoas tranqüilas - tranqüilidade há somente no cemitério, onde descansamos em paz - ela não nos promete felicidade, nem pretende curar sintomas.
       Talvez, uma das propostas da psicanálise seja levar o paciente a tomar consciência das suas possibilidades e limitações, ou seja, promover o autoconhecimento, e, a partir daí, ter uma visão mais globalizada de si mesmo e do mundo. O ser humano está condenado a não escapar da angústia e é através dela que podemos crescer emocionalmente. Há uma tendência das pessoas em não querer saber nada da subjetividade humana. Estamos nos tornando, cada vez mais, imediatistas e concretos. O pensar é visto como algo que atrasa o ritmo da vida. Engole-se um antidepressivo e o mundo que se lixe. Essa “pílula da felicidade”, usada como cosmético, vai encobrir nossos desejos e conflitos psíquicos.
          Pacientes que somente enfiam medicamentos pela goela abaixo não têm o suficiente para si. Eles merecem mais do que ficar bem-humorados ou eufóricos. Temos, além do cérebro, uma memória inconsciente que registra tudo: infância, mãe, pai, irmão e o mundo relacional onde se desenrola a trama psíquica de Narciso a Édipo.
          A psicanálise não deve competir com neurolépticos e abordagens terapêuticas que buscam o alívio rápido com eliminação das angústias e dos sintomas. Psicanálise não serve mesmo para isto. Ao contrário, considera que os sintomas e angústias têm um sentido e função, e a eliminação pura e simples deles impediria que se chegasse ao âmago da questão. Ela não se ocupa em oferecer alívios imediatos para afastar os indivíduos do sofrimento. Não considera, inclusive, que se possa viver sem sofrer ou que haja desenvolvimento pessoal sem sofrimento. A Psicanálise ocupa-se de investigar e conhecer a natureza da mente humana, a essência da condição humana, numa viagem rumo ao desconhecido. Fazer psicanálise é um privilégio, que quem tem sabe o quanto é necessário.
          Quem sabe, neurocientistas e psicanalistas juntos, irmanados e sem disputas narcísicas, possam prosseguir suas pesquisas sobre a investigação dos fenômenos patológicos mentais, e ajudar seus pacientes a terem uma mente menos sofrida. Ambos os profissionais, não podem, isoladamente, desvendar todos os mistérios que envolvem o nosso psiquismo. Penso que há pacientes que precisam de medicamentos, até mesmo para poderem chegar ao divã do psicanalista, bem como há outros que, mesmo tomando medicamentos, irão beneficiar-se em muito do tratamento psicanalítico.
        

Nenhum comentário:

Postar um comentário