6 de janeiro de 2015

Aos Tímidos...

 Félix F. Elvas Pequeno


      A timidez é um sentimento de incapacidade que imobiliza muitas pessoas. Impede-as de ter uma vida mais rica e plena em relacionamentos. O tímido se retrai e, assim, congela seu afeto. Ele vai cheio de esperanças e expectativas para um lugar, ao encontro de outra pessoa ou mesmo a uma reunião onde trabalha, mas, de repente é invadido por um medo monstruoso de se expor. E o que acontece? Esconde-se cabisbaixo ou arranja uma desculpa e acaba não mostrando suas capacidades. É invadido por um sentimento de menosvalia. Fica atrapalhado, engasga, tropeça e fica se sentindo uma formiguinha frágil, lá no chão. Ele tem medo de não agradar às pessoas, de não conseguir dar o recado e de não ser correspondido. Carrega dentro de si um pressentimento de que não vai dar certo, que vai embananar-se todo. Vive fantasias inconscientes de não ser admirado, de não ser correspondido, pois quando criança tinha essas mesmas fantasias de que não era valorizado pelos seus pais quando mostrava suas capacidades. Então foi crescendo e transferindo para outras pessoas aquelas fantasias de quando criança. O medo de se juntar a outras pessoas foi aumentando e o aprisionou dentro de uma concha onde se protege e se esconde.
      O tímido tem medo de se entregar ao novo, ao desconhecido. Dentro de sua cabeça, tudo vai acontecer do jeito que ele imagina. Sua mente está cheia de certezas. Ele já sabe tudo o que vai acontecer antes do encontro, portanto, delira e diz: “Se eu for àquele encontro (ou àquela reunião) não vou ser correspondido, não vou me fazer entender, não vou ser capaz”. Pronto, se enfeitiçou. Sente-se incapacitado, um lixo. Ele conta historinhas de monstros e terror para assustar a si mesmo.
      O que fazer? Quebrar o feitiço. Como? Pensando. O que é pensar? Questionar-se com humildade: “Será que sou profeta ou vidente? Será que tudo o que imagino vai acontecer? Será que eu sei o que se passa dentro da cabeça das outras pessoas, ou estou projetando nelas meus monstros internos? O pensar quebra as fantasias onipotentes, as certezas, o delírio, o feitiço”.
      Em seguida, após o aprender a pensar, o tímido deve ir em frente, não dá para nascer de novo. “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, portanto, fica aí a proposta para o tímido: “amansar” o bicho, o monstro que habita sua cabeça e que é projetado no mundo externo. O filósofo Nietzsche dizia haver encontrado dentro de sua cabeça um bicho assustador, um monstro; mas descobriu que esse “monstro” era brincalhão e sorridente.

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