10 de dezembro de 2015

Boneco de Marionete

Félix F. Elvas Pequeno

Agia segundo as leis do seu “Senhor" interno, sua parte severa,
Assustadora e castradora, que ele obedecia e reverenciava.
Ser senhor dos seus desejos jamais, somente realizar os desejos dos outros.
Mentalmente reprimido,
E ensimesmado.
Era, portanto, um homem de “bem”, de “moral”, “respeitado".
Fingidamente sério.
Politicamente correto.

Estava enfeitiçado pelos ensinamentos do seu "Senhor",
Sem questionar ou se rebelar.
Pois precisava ser admirado, amado...
Achava que ser normal,
Era ser igual a manada,
Marcado e programado.

Assim foi se transformando em boneco de marionete.
Dançava no palco social,
Conduzido pelos cordões nas mãos do seu "Senhor".
Gostava de dançar bolero,
Dois pra lá, dois pra cá,
Passo a passo, no compasso da mentira e do fracasso.
Engolia tudo goela abaixo,
Não era curioso;
Pelo contrário, medroso e acomodado.
Não se arriscava,
Facilmente manobrado.

E sua "criança" interna, a outra parte,
Dava risadas, e dizia: "brinque de ser mágico e desfaça o feitiço,
Chute a bola e faça um gol,
Faça e solte uma pipa, se arrisque pelo ar...
Seja criativo, invente um tapete mágico e voe daqui da terra para outro lugar..." 
Mas a voz de “Senhor” controlava sua cachola:
"Não de ouvidos a essa criança,pois é maluquinha,
Esqueça de seus desejos, seja os  meus desejos,
Seja normal, nunca diferente, sempre adequado e adaptado".

Ele continuou fazendo tudo  ao que seu "Senhor" ordenava.
Obedecendo e encaixotado,
Ficou eternamente enfeitiçado.
Sua cachola ficou petrificada,
E virou para sempre boneco de marionete,
Sem mente e inocente.
Sem sensibilidade,
Sem singularidade, 
perdeu sua identidade.

15 de novembro de 2015

Epidemia da Depressão

Félix Elvas Pequeno

Ultimamente venho estudando, lendo trabalhos científicos e livros sobre a psicanálise do Século XXI. Recentemente li o livro "Inconsciente e Responsabilidade" (Prêmio Jabuti de 2013), do psicanalista e psiquiatra Jorge Forbes. Recomendo-o aos curiosos. Também tenho lido seus textos que estão disponíveis em seu site. Estou postando o texto que se segue abaixo, onde Forbes mostra sua singularidade e de fazê-la passar aos leitores. "A singularidade é um trabalho de ousadia, de invenção, um trabalho de fazer passar isso ao mundo, e de que o mundo também possa ser visto por essa singularidade."
Ao meu ver, o psicanalista de hoje precisa conduzir o paciente a descobrir sua singularidade de ser responsável pelo que faz e pelo que é, não culpando sua depressão como se não tivesse nada a ver com isso.

Está todo mundo deprimido (Jorge Forbes)

Ser feliz dá um trabalho danado. Chega até a assustar, mas não mata, não

Está todo mundo deprimido, a felicidade foi embora.

Se em uma reunião pudéssemos fazer  raios-X das bolsas e dos bolsos, encontraríamos, entre os gêneros de primeira portabilidade, comprimidos de antidepressivos. O que antes tinha emprego discreto, hoje virou conversa de salão. Discute-se qual medicamento cada um toma, como reagiu, há quanto tempo, se o genérico substitui bem o oficial e por aí vai. E se a fala corre solta, sem o comedimento anterior, é porque uma forte propaganda convenceu muita gente de que a depressão é uma doença como outra qualquer, como quebrar o braço em um acidente ou contrair malária. Essa propaganda de fortes coloridos interesseiros da indústria farmacêutica, associada a uma medicina que se orgulha em ser baseada em evidências – aquela em que o médico não dá um passo sem pedir um monte de exames – veiculou a ideia de que você não tem nada a ver com a sua depressão, que os sentimentos são cientificamente mensuráveis e, em decorrência, controláveis.

Se alguém já viu um interrogatório desses que querem medir o estado depressivo – com algumas nobres exceções - verá que é difícil escapar de ser tachado de doente, quando perguntas como essas lhe são dirigidas, simultaneamente: -“Você tem dormido pouco, ultimamente?”, ou: -“Você tem dormido muito, ultimamente?”. 

Por que essa euforia da depressão? Será mesmo, como muitos respondem, por uma desregulação dos níveis do neurotransmissor serotonina? A serotonina ficou até popular, todo mundo fala dela como do colesterol. Ela é íntima. Agora, por que a serotonina ficou alterada de repente em tanta gente? Alguma epidemia viral de vírus anti-serotonina ou coisa que o valha? Não parece.

Prefiro pensar que se há muita depressão é porque sofremos uma revolução dos parâmetros que atuam na formação da identidade. Na saída da sociedade moderna para a pós-moderna, não temos mais termômetros de certo e errado que serviam para as pessoas se orientarem se estavam bem ou mal. Com o fim desse maniqueísmo, nossos tempos exigem maior responsabilidade individual no seu bem estar. Aí, muitos fraquejam. Dou um exemplo simples: uma pessoa cruza com um conhecido na rua e o cumprimenta. O outro não responde e segue seu caminho. Qual a primeira pergunta que vem na cabeça de quem fez o cumprimento? O que vem é: -“O que foi que eu fiz?”, no sentido de uma bobagem que ele teria cometido motivo da falta de resposta ao cumprimento. Quando a identidade, como nesse caso, titubeia, ela se regenera, paradoxalmente, na auto-depreciação. Daí para se sentir deprimido é um pequeno passo. E, para complementar a receita, como estamos na época da medicalização da vida, na qual se acredita que para tudo tem remédio, pronto, tasca antidepressivo nele.

Triste tempo esse, realmente, em que tentam dessubjetivar a responsabilidade pessoal frente aos sentimentos. Mas não vai funcionar, como nunca funcionou na história da humanidade quando já tentaram amordaçar o desejo humano.

Ser feliz dá um trabalho danado, chega até a assustar, mas não mata não.


Texto publicado originalmente na revista Gente IstoÉ – setembro 2013

“ID” (das Es) - poema em versos soltos e desconexos.*

Félix F. Elvas Pequeno

Pedaço de mim caótico.
Vulcão cheio de excitação.
Estás repleto de tesão.
És desorganizado, emocional e danado.
Fostes me dado pelos meus pais,
E fixado na minha constituição.

Teu brilho é incandescente,
Me deixas fogoso.
És primitivo,
Uma criança mimada,
Toda endiabrada.
Ingênua, atrevida e sem juízo.

Não sabes nem o que é bom,
Nem o que é mau.
Obedeces somente ao princípio do prazer.
Não temes, como o “ego”
És minha parte animal,
És tudo o que meu ego não é.

Tens vontade própria,
És individual.
Foges da minha razão,
Só obedeces ao meu coração.
Basta um gesto brusco teu,
Pronto! perco a cabeça.
Te bebo e me embriago em ti.
És um substrato da minha pulsão.

Me fazes ter paixões,
E cometo traições...
Rompo com o convencional,
Com os mandamentos de Deus,
Deixo de ser anjo,
Peco,
E viro demônio.

Me tornas fogoso,
Brincas com meu corpo,
E quem vem brincar comigo
Corre o risco de se queimar.

De repente, te recalco.
Voltas lá para o fundo da mente.
Deixo de delirar,
Fico encaixotado
E demente.

Mas és paciencioso, esperas...
E foges clandestinamente,
E com disfarces,
“Re-apareces”:
Nos meus sonhos,
Nos meus sintomas,
Nos meus lapsos,
E nos meus atos falhos.

És obscuro,
Obsceno.
Me invades a qualquer instante.
Brotas lá do inconsciente,
E como um potro selvagem,
Rompes a porteira da consciência.

Quando escrevo,
Vens no meu primeiro rascunho,
Te rabisco,
Te maltrato,
Te jogo no lixo.

Ficas um menino obediente,
Te recolhes humildemente,
E ficas esperando,
Um novo momento...

Hoje vieste,
Te acolhi,
E não te reprimi;
Te lapidei,
E te transformei
Neste ato de criação.
Vives um indo e vindo
Infinito...

Ficas à mercê,
De quem bom uso faz de ti:
Os poetas,
Os compositores,
Os pintores,
Escultores,
Enfim,
De quem for criador...
De quem aproveitar tua energia
Para fazer de ti
Belas “transformações”...                                              

31 de outubro de 2015

Desalento

Félix F. Elvas Pequeno (Esta poesia escrevi para uma amiga que tinha terminado com um relacionamento amoroso)

Te amei mais do que devia amar.
Investi todo meu amor em ti.
Em ti achei que tinha encontrado
A razão de não sofrer mais,
De amar, amar, amar.

Poderia te amar pouco,
Mas não consegui segurar meus desejos.
Me entreguei,
Me despi,
Me ralei,
Lutei,
Me expus,
Me humilhei,
Implorei.
Tudo fiz para tê-lo.
Te tive por pouco tempo,
Você me deu um olá
E logo um adeus.
Te perdi.
Um pedaço de mim se foi junto.
Estou triste.
Abatida.
No avesso.
Esvaecida.

Por tudo isso,
Largo o meu corpo neste momento, nesta cama.
Sinto-me menos, encolhida,
Adunca,
Diminuída e esmorecida.
Uma flor bela que murchou.

Minha metade arrancada se foi.
Estou sangrando, como uma hemorragia.
Há muita dor no meu ventre e no meu peito.
Estou rendida, abatida como um pássaro.

Sinto-me trincada,
Espatifada,
Envergonhada,
Cheia de culpa,
Pois me traí.
Pequei contra meus princípios.
Escuto apenas meu gemido sussurrando.
                         
Quero ficar aqui quieta,
Murmurando.
Entrelaçada comigo mesma,
Velando meus sonhos, meus desejos
Que se foram contigo.

Fui tola.
Me entreguei do fundo da alma,
Deixei-me ser  usada,
Violentada.
Me auto-desprezei
Que estupidez!

Sinto-me cansada,
Entorpecida.
Quero agora repousar, dormir,
Fugir num sono profundo,
Até me “re-fazer”
Pra não sei o quê.


21 de outubro de 2015

Hipocondria. O que é?

O que é hipocondria?

A hipocondria é um estado psíquico crônico em que a pessoa crê, sem fundamentos, ter uma doença grave, sente um irrazoável medo da morte, é acometida por uma verdadeira obsessão com sintomas ou defeitos físicos irrelevantes, mantém uma auto-observação constante do corpo e mostra descrença nos diagnósticos médicos. Trata-se de uma patologia séria que prejudica muito a vida dos pacientes.

Como agem os hipocondríacos?

Inconformados com os médicos que afirmam que eles estão em perfeita saúde, muitas dessas pessoas procuram por outro profissional na busca por encontrar um diagnóstico para o mal que supõem acometê-los. Na melhor das hipóteses pensarão: “quem sabe se a doença não começou depois do último exame?”. Algumas vezes concentram suas preocupações sobre um determinado órgão ou sistema corporal (o coração ou o sistema digestivo, por exemplo) e outras vezes variam alternativamente suas preocupações, as quais podem atingir vários órgãos ou sistemas.

Muitos hipocondríacos chegam ao médico trazendo uma pilha de exames que colecionam a longo tempo e demandando outros novos. Diante da afirmativa de que nada têm, sentem-se incompreendidos pelo médico e pelos familiares “que não acreditam” no que eles dizem e ficam ofendidos com a sugestão de que devem consultar um psiquiatra. Na verdade, essa afirmativa de certa maneira é incorreta porque sentir algo onde tudo está organicamente perfeito não é normal. Os hipocondríacos “têm” alguma coisa; só que essa coisa não é física, mas psíquica. Popularmente, costuma-se denominar a hipocondria de “mania de doença”.

Como são os hipocondríacos?

O hipocondríaco é extremamente centrado em si mesmo (narcisista, em termos psicanalíticos) a ponto de não se atentar para a realidade e não se importar com ela. Isso acontece em diferentes graus para cada paciente. Ele se preocupa exageradamente com a possível presença de doença e geralmente pensa ser portador de sinais esintomas de várias delas, muitas vezes entrando em pânico por isso.

Às vezes, os hipocondríacos apenas sobrevalorizam num sentido negativo e pessimista certos sinais próprios da fisiologia normal como ruídos orgânicos comuns, dormências posturais, tremores constitucionais, etc., ou são sugestionados pelas divulgações de enfermidades pela mídia. Em muitos casos se sentem melhor ao tomar remédios, achando assim estar livres das supostas doenças. Outros hipocondríacos “descobrem” métodos alternativos para “curar” as supostas doenças, os quais podem funcionar, já que elas são imaginárias.

A hipocondria grave tem muitos aspectos formais das psicoses.

Como é feito o diagnóstico da hipocondria?

O diagnóstico da hipocondria é eminentemente clínico. Deve ser feito pela incongruência dos sintomas e pela história de persistentes queixas sem fundamento. As queixas do hipocondríaco obedecem mais à anatomia e à fisiologia populares que aos conhecimentos científicos.

Como é o tratamento?

Não se conhece tratamento específico para a hipocondria, mas a psicoterapia analítica é essencial para que o paciente se sinta melhor.


Fonte:

ABC.MED.BR, 2011. Hipocondria. O que é?. Disponível em: <http://www.abc.med.br/p/psicologia..47.psiquiatria/232395/hipocondria+o+que+e.htm>. Acesso em: 21 out. 2015.

15 de outubro de 2015

Pulsão (Impulso)

Félix F. Elvas Pequeno

Carga energética impalpável, invisível
O Teu alvo é suprimir todo estado de tensão
És grandiosa em tua determinação
És um processo dinâmico que consiste numa pressão

Qual é a tua cor? Vermelha?
Qual é a tua forma? Uma seta?
De onde vens? Para onde vais?
Não sei te definir,
Pois és indefinível. És um constructo.
Imagino que venhas do psico e do somático.

Pensar em ti, pulsão,
É falar do que é próprio ao homem.
És o rompimento com o mundo animal,
Aí se define o humano.

Não consigo te pegar, escapas à minha razão.
Sei que estás no meu corpo a navegar
Sei que estás na minha idéia a me infernizar.

Estás nos meus desejos, nos meus pecados, na minha tesão
És volúvel como a volúpia
Sobes nas cabeças dos amantes
Deliberas e executas sem compaixão

Não és fixa, são tantas as tuas fontes:
Pulsão oral, pulsão de vida,
pulsão de morte, pulsão sexual.

Às vezes te recalco, te maltrato,
Mas, num ato de coragem e persistência,
Voltas maravilhosamente
E danças no meu corpo como uma bailarina
Executa vôos como uma ave colorida

És um corte trágico
entre a natureza e o homem.
É a tua inscrição no psíquico
que vai transformar o corpo biológico
em corpo erógeno.

Narciso te aprisiona;
Édipo, assustado, te intimida
Explodes em Eros
e adormeces em Tânatos.

30 de setembro de 2015

"Tratamentos Mágicos"

Félix F. Elvas Pequeno

          Noutro dia, estava fazendo minha caminhada, quando me chamou a atenção uma faixa grandona pregada no muro: “Exercícios para a mente e para o corpo. Vamos repetir o sucesso do mês passado”.
          Continuei caminhando e me vieram à mente lembranças de uma série de propagandas onde anunciam promessas de curas rápidas para os problemas mentais.
          Pois é. Está cheio de propagandas sobre “tratamentos” para a mente através de cursos de fins de semana, palestras, livros e CDs, todos prometendo “ensinar” a eliminar problemas e ter uma “saúde” mental ótima. Há, no mercado, por preço de banana, uma série de propostas sedutoras, maravilhosas, convidando aquelas pessoas mentalmente sofridas, desesperadas a buscarem freneticamente tratamentos rápidos e mágicos. Tais tratamentos, que estão se proliferando dia-a-dia e na moda, são enganosos e sem profundidade. O objetivo deles é condicionar, programar, doutrinar a mente humana, ganhar dinheiro fácil, sendo dirigidos para pessoas sugestionáveis, supersticiosas, sensíveis, inseguras e ingênuas, não importando o grau cultural delas.
          Os coordenadores ou “professores” desses tratamentos são geralmente pessoas muito inteligentes, que usam falas bonitas, tons de voz estudados e impressionam com seu discurso sedutor, muitos deles, são psicopatas. No fundo, se aproveitam da ingenuidade de quem os procura.
          É comum ouvirmos coisas mais ou menos assim: “Olha, fulano, eu fui lá naquele curso no último fim de semana, e estava maravilhoso. Fiquei ótimo. Sem problemas. Vai ter outro curso brevemente, vamos juntos? É somente seguir à risca as instruções que são dadas e sua mente vai ficar leve e sem problemas.”
          Sabe o que vai acontecer se você ficar seguindo instruções de gurus, mestres e guias? Você vai se tornar ele, vai perder sua própria identidade e virar um fantoche. Vai sentir um alívio imediato, mas momentâneo. Seus problemas não se resolvem, porque os cursos não têm fundamentos para atingi-los, e segundo, porque quem maneja o curso não tem formação para isso.
          As respostas para seus problemas estão em você mesmo.Nossos conflitos emocionais se originam lá na infância, nos primeiros anos de vida, nos antigos relacionamentos com nossos pais, com a família, com grupos sociais, com a cultura. Estão guardados dentro de nosso inconsciente.
          Tudo o que fazemos ou somos hoje tem um sentido ou um significado inconsciente, o que é impossível descobrirmos em tratamentos rápidos. Cada pessoa tem sua história de vida própria. Portanto, não dá para encaixá-las num tratamento programado, ou vender-lhes livros e CDs com receitas prontas.
          É uma violência e perversidade condicioná-las ou encaixotá-las em tratamentos duvidosos, que vendem, por atacado, um conhecimento da mente humana.
          Quem tem conflitos emocionais, familiares, conjugais, depressões, pânicos, doenças psicossomáticas, deve ser tratado por profissionais de saúde mental (psicólogos e/ou psiquiatras) legalmente credenciados e aptos. Tais profissionais utilizam métodos e técnicas científicas que aprendem em universidades e cursos de especialização.
          Desconfie de pessoas que fazem tratamentos mágicos para eliminar seus problemas. É exercício ilegal da profissão, tratar da mente humana sem ser um dos profissionais acima citados.
          Não dá para fazer “vista grossa” vendo pessoas serem enganadas e exploradas. Muitas delas, depois de freqüentarem cursos e mais cursos, lerem livros e ouvirem CDs, chegam aos nossos consultórios sofridas, com a mente arrebentada, confusas e, muitas vezes, psicóticas.

15 de setembro de 2015

ENTRANHADOS

Félix F. Elvas Pequeno

Sou feliz porque és feliz.
Sou infeliz porque és infeliz.
Sou culpado porque és infeliz.
És culpada porque sou infeliz.

Se ficares feliz, não sinto-me culpado.
Se eu ficar feliz, não se sentirás culpada.

Quando brigo com você e não gostas,
Sinto-me atormentado e vou te adular.

Quando brigas comigo e não gosto,
Sente-se desamparada e vens me bajular.

E assim vamos convivendo,
Sem identidade própria,
Sem podermos nos separar
Eu ser eu e você ser você
Estamos grudados,
Misturados, entranhados,
Num total estado de indiferenciação,
Somos um só.
Que relação torturante,
Aprisionante e entediante.

26 de agosto de 2015

O Invejoso

Félix F. Elvas Pequeno

     A inveja é a manifestação inconsciente de intensos impulsos destrutivos e a maneira como ela é resolvida ou não vai influenciar no desenvolvimento normal ou patológico da pessoa, bem como na formação de sua personalidade.
     A inveja envolve uma relação de duas pessoas, na qual uma inveja a outra por alguma qualidade ou posse. É um sentimento raivoso do que a outra pessoa possui e desfruta de algo desejável.
     O invejoso está presente em contextos sociais, profissionais e familiares, às vezes, aparece explicitamente e, muitas vezes, sorrateiramente.
        Há uma estória que retrata o sentido da inveja:
     “Uma fada aparece diante de um invejoso dizendo que ela poderá, magicamente, dar-lhe tudo o que seus desejos imaginarem – bens materiais, qualidades pessoais e toda sorte de felicidade. Mas há uma única condição: que seu vizinho, pessoa a quem muito invejara, obtivesse em dobro seus desejos. Sabe o que o invejoso desejou? Desejou que a fada lhe arrancasse um olho”.
     Aqui vão, em seguida, uns versos sobre o invejoso.
 

O  INVEJOSO

Seus olhos arregalados e agitados
revelam um coração perturbado e malvado.
Seu amor está abafado
e seu ódio exaltado.
Por não poder desfrutar o que o outro tem
joga um olhar raivoso e destrutivo
tentando tomar ou estragar o que o outro, de direito, possui e desfruta.
Com seu mau-olhado, tenta agourar o bom e o belo, o amor...
E, às vezes, consegue secar, esvaziar e devorar com seu olhar enviesado.
Seus olhos estão sempre doentes
embebidos em veneno
expelindo raios mortíferos.
A sua companheira inseparável é a ingratidão.
O seu fim é viver e morrer
num mundo solitário, cinzento e frio.

10 de agosto de 2015

O Macaco que Queria ser Rei

Félix F. Elvas Pequeno

     Outro dia, estava cá com meus botões, pensando a respeito das notícias nos jornais sobre grandes falências... nossos empresários... nossos governantes... nas corrupções... nas próximas eleições... me perguntei: “O que é fundamental para ser um grande homem, um grande administrador e um grande governante? Veio uma resposta: “Conhecer-se a si mesmo”. Estava eu divagando, quando, de repente, numa associação de idéias, lembrei-me de uma fábula de La Fontaine: “O macaco e a raposa”. Resolvi reescrevê-la, adaptando-a para a história que segue:
     Era uma vez, um célebre leão que era o rei dos animais de um certo país bem perto daqui. Governava com humildade, habilidade e honestidade. Todos os seus súditos eram-lhe muito gratos. Admiravam-no e o respeitavam pela sua competência e sabedoria. Enfim, ele era equilibrado emocionalmente.
     Num certo dia, ao defender seu país contra a invasão de um grupo de hienas que queriam devorar seus súditos mais frágeis e ingênuos, feriu-se mortalmente e veio a falecer. Seus súditos se sentiram tão totalmente desamparados e desesperados, que se viram na necessidade urgente de substituir o falecido rei. Reuniram-se e tiraram de um estojo a coroa real, colocando-a sobre a cabeça de vários animais para ver a quem servia; para alguns era grande; para outros, pequena. Mas havia um macaco que ficava troçando, gritando, falando alto, pulando de galho em galho, rindo, fazendo mil caretas, e também quis experimentar a tal coroa. Mas, não é que, para surpresa de todos, a tal coroa lhe servira! Então o macaco, num bote rápido, pegou a coroa na mão, como se fosse um arco de circo, fez caretas e muitas momices, gritou, fez acrobacias e, num discurso onipotente, prometeu governar melhor que o falecido rei leão. Foi aplaudido em pé pelos outros animais que resolveram votar nele para seu novo rei.
     Todos os animais votaram e o macaco psicopata que ambicionava ser rei foi enfim coroado.
     Mas um dos animais, a raposa, se arrependeu amargamente de ter dado seu voto a ele, mas não revelou isso a ninguém. Prestou, ao novo monarca, uma homenagem suntuosa e cochichou no ouvido do macaco: “Majestade, tem um lugar, dentro destes domínios, que guarda um rico e grandioso tesouro, e pertence de direito unicamente à vossa majestade. É conveniente que o senhor vá buscá-lo imediatamente, antes que algum animal esperto e invejoso se antecipe à vossa majestade”.
     O macaco-rei que era mais invejoso ainda, vorazmente, gananciosamente e cheio de cobiça, correu rapidinho para o local indicado pela raposa. Foi sozinho, é claro, pois não confiava em ninguém. Tinha idéias de perseguição. Lá chegando ficou deslumbrado com o tal tesouro, com os olhos enlouquecidos pela ganância, e quando se apressava para apoderar-se do tesouro ficou preso num laço, uma armadilha que estava previamente armada. O macaco-rei, desesperado, pôs-se a guinchar, soltando sons agudos, desarticulados e estridentes, amaldiçoando quem o levara a cometer tamanha loucura e gritou: “Quem foi o traidor que armou tal armadilha para mim?” A raposa, que espreitava tudo o que se passava, respondeu em nome de todos os demais súditos: “Fui eu, seu macaco ganancioso, atrapalhado e metido a ser rei. Pretendes ainda governar-nos, se não és capaz de governar a ti mesmo?”
     Então, o macaco foi derrubado do trono, demitido, e assim ficou demonstrado que a bem poucas pessoas convém a coroa.
       Fica, aí, uma lição aos líderes e governantes: governa-te a ti mesmo, é preciso reconhecer tuas possibilidades e limitações, para que não sejas mais um psicopata como o macaco da história acima.
     A história termina aqui. Entrou por uma porta, saiu pela outra, quem se incomodou que conte outra.

22 de julho de 2015

Toda doença é Psicossomática

(Trabalho apresentado na revista de Medicina Psicossomática e síntese feita por Félix Elvas Pequeno)

O ser humano é inevitavelmente psicossomático. Não há nenhuma doença que não seja psicossomática. Há doenças onde o fator psicológico é mais preponderante, outras em que é o físico, mas tais fatores estão sempre presentes e interagindo, tanto no adoecer, como na cura.
Quando a nossa mente não consegue resolver os nossos conflitos internos ou externos, então o corpo padece, o corpo grita, o corpo adoece como um pedido de socorro, inconscientemente, para alguém nos ajudar a resolver tais conflitos. O corpo e a mente estão interligados, não dá para separar o que é do corpo e o que é da mente. Toda manifestação de doenças no corpo, começa na mente, e isso gera uma grande confusão porque os médicos e os doentes não têm uma noção correta disso. Muitos médicos ficam querendo dividir o Ser, como se fosse possível pensar em um Ser somático e um Ser psíquico, como se fossem duas coisas independentes. A maioria dos pacientes tem longa e complicada história de contato com serviços médicos, tanto no consultório como em pronto-socorro, durante os quais, exames e investigações por imagens são negativas ou até cirurgias sem necessidade são realizadas.
O paciente psicossomaticamente doente refere sintomas relacionados a qualquer parte do corpo. Os sintomas mais freqüentes são: sensações gastrointestinais (dor, queimação, vômitos, náuseas, etc), sensações anormais na pele (coceiras, queimação, formigamento, dormência, manchas). Queixas sexuais, menstruais, também são comuns, e outros sintomas ortopédicos como lombalgias, dores nas pernas, braços, ombros, coluna, etc. Atualmente, existe a fibromialgia, que é uma doença da cabeça, e tem os seguintes sintomas: dor generalizada pelo corpo, por mais de três meses; depressão; sensação de inchaço nas articulações (juntas); problemas intestinais (diarréias alternadas com prisão de ventre); formigamento; dormência no pescoço, braços, mãos e pés; insônia ou sono não restaurador (a pessoa já acorda cansada); dores na região do pescoço e cervical; cansaço físico constante.
É fundamental que ao avaliar um paciente adulto ou criança, os médicos estejam atentos aos fatores físicos, emocionais e sociais, que estão conjuntamente ligados ao desencadeamento das doenças. Não se pode tratar uma pessoa separando o psíquico do físico. Há muitas pesquisas que demonstram que a depressão, por exemplo, provoca uma inibição do sistema imunológico, e, conseqüentemente, facilita muitas doenças físicas, inclusive doenças virais, que muitos remédios não vão resolver.
Em um consultório médico, principalmente de certos planos de saúde, o médico vai conversar com o paciente, pergunta o sintoma, dá o medicamento ou pede algum exame e acabou. Dura mais ou menos 10 a 15 minutos. Muitas vezes, essa perda de contato do médico é tão radical que não é só a história da pessoa que ele não tira direito, às vezes não tira corretamente nem a história da doença. Um pneumologista, por exemplo, recebe um paciente e pergunta só do pulmão, nem pergunta sobre o resto do seu corpo, muito menos das coisas da vida e esquece que não há um pulmão isolado. O paciente deve ser visto como um todo. Ele é um ser bio-psico-social. É preciso ouvir e ouvir não é somente escutar. Ouvir de verdade é quando você consegue se colocar no lugar do paciente, entender o sentimento e o problema do paciente.
   As pessoas podem viver melhor e evitar doenças dependendo da capacidade delas em lidar com seus conflitos e problemas, que por uma série de fatores emocionais, têm grande capacidade para lidar com frustrações, perdas e separações sozinhas. Outras não são capazes de lidar sozinhos com seus conflitos e problemas. Então, podem se beneficiar muito de uma psicoterapia individual.

5 de junho de 2015

O Psicanalista como "Triturador de Problemas" (baseado no trabalho apresentado por Roosevelt Cassorla)

Félix F. Elvas Pequeno

  Assim como o aparelho digestivo que recebe o alimento, tritura-o, digere-o e o transforma em energia para o corpo, o psicanalista funciona de forma semelhante: ele, através de seu aparelho mental, recebe os problemas do paciente, tritura-os, digere-os e os transforma em “coisas pensáveis”. Em outras palavras, se o psicanalista possuir uma capacidade de ser continente, ele irá acolher as angústias e necessidades do paciente, contê-las dentro de si o tempo que for necessário para poder metabolizá-las, decodificá-las e encontrar o significado para elas. Então, no momento certo, passa a devolvê-las desintoxicadas ao paciente, por meio da interpretação.
  O paciente vive momentos de desamparo emocional e medos intensos, assim como faz o bebê que tem a sensação de estar só, dependente de alguém que lhe ajude a situar-se emocionalmente, mas tem medo de não encontrar esse alguém para socorrê-lo e acolhê-lo. O paciente tem medo de não encontrar ressonâncias para seus “gritos de socorro”  e nem eco para suas angústias que não consegue pôr em palavras (terror sem nome). Ele tem medo de não haver ninguém neste mundo que compreenda e dê sentido a suas palavras, de forma que se tornem simbolizáveis. Então o analista entra em cena, colocando-se na função de “facilitador suficientemente bom” e “continente ativo”, aceitando o desafio de mergulhar dentro desse mar de angústias do paciente, com o propósito de traduzir em palavras esse mundo cheio de horror e dor.
Se aquilo que o analista coloca em palavras faz eco na mente do paciente, este sente que alguém está ali bem pertinho dele em sintonia emocional, podendo servir de uma “escada” para tirá-lo de um abismo intransponível cheio de solidão.
   Agora vem o mais difícil ao meu ver, isto é, para ser um “triturador de problemas”, o analista precisa desenvolver uma capacidade de se expor ao desconhecido e às incertezas. Ele precisa ser tolerante, paciencioso e, principalmente, renunciar ao seu narcisismo intelectual (que o levaria a ter certeza do que vai acontecer na situação analítica) e fazer um esforço para suportar dúvidas e o “não saber” do encontro analítico, ao que Bion chamou de “capacidade negativa”, indispensável ao psicanalista.
  Se ele for capaz de pensar e não delirar (não ter verdades e teorias prontas), poderá “triturar” os problemas do paciente sem sofrer “indigestão mental”, e sem provocar, conseqüentemente, “indigestão” na mente de seu paciente.

20 de maio de 2015

O Olho Analítico

Félix F. Elvas Pequeno


Entre outros olhos,
Há  o “olho científico”,
O “olho religioso”,
E “olho analítico”

O “olho analítico”,
É um “olho artístico”,
Calcado não somente
No saber psicanalítico.
Não é crítico.
É doce e amoroso,
Sábio, paciencioso,
Não rigoroso.

Ele vê além das maquiagens.
É profundo.
E vai lá no fundo do inconsciente.
Descodifica e tenta descobrir o verdadeiro eu.

É todo intuição
Que brota lá do coração,
E faz pela mente do paciente,
Ora vôos rasantes
Ora vôos altos
Com refinada percepção.

O “olho analítico”
É como “facho de escuridão”.
É como céu à noite
Que nos permite ver as estrelas,
Que já existem no firmamento,
Mas que estavam obscuras aos nossos olhos,
À luz do dia.

Ele é cheio de vivacidade,
E capta com claridade
O mundo inconsciente.
Na escuridão da mente,
Descobre não somente bruxas,
Monstros e demônios,
Mas sobretudo obras de arte incandescentes.

É um olhar materno,
Matreiro,
Meigo e amoroso.
Repleto de bondade
Vem de lá de dentro,
De um espaço interior multicolorido,
Que capta sutilizas e nuanças de cores,
Ora cores frias e esmaecidas,
Ora cores brilhantes e aquecidas.

É o olhar do cegos e dos poetas,
Que enxergam com terceiro olho,
Onde o que é conhecido e esquecido,
Passa a ser reconhecido.

O “olho analítico”
Não é exclusivo dos psicanalistas,
Mas de todos que possam “cegar-se” à razão,
E possam brincar com as idéias e a intuição,
Fazendo belas “transformações” e evoluções,
Sem memórias, sem desejos e sem compreensão.

Ele olha para além das máscaras,
Que estão grudadas nos rostos,
E nos aproxima da beleza original,
Para que possamos beijá-la,
E agraciarmo-nos com ela.
                                                                   
E então, quebramos os discursos
Que nos foram mal-ditos...

8 de maio de 2015

Impressões Sobre Minha Mãe, no dia das Mães


Félix F. Elvas Pequeno

      Imagino que desde o tempo em que eu estava dentro do útero da minha mãe, começaram a se estabelecer vínculos afetivos entre nós. Fantasio que trocávamos carinhos, brigávamos, eu lhe dava pontapés, mas sempre aquele ventre materno era paciencioso e acolhedor para comigo. Lá dentro, era meu cantinho gostoso, quentinho, aconchegante e protegido. Respirávamos, sentíamos e nos alimentávamos juntos.
      Quando nasci, aconteceu meu primeiro grande susto, a minha primeira separação, e, assim, meu primeiro sentimento de ameaça, pois acabava de entrar em contacto com um mundo externo desconhecido. Vivi um “terror sem nome”, mas lá estava, outra vez, minha mãe, que me pegou com suas mãos mansas, me levou para pertinho de seu peito e me protegeu. Dáva-me de mamar, e juntamente com o leite que brotava de seu peito, me passava amor, carinho e doçura.
      Desde bebê, formávamos um par - mãe e bebê - e dessa relação é que se foi desenhando a minha vida mental. Naquela época, eu enfiava em minha mãe ansiedades e fantasias de terror, pois eu ainda não era capaz de conter sozinho meu pânico, principalmente, diante da eminência de uma morte concreta.
Mais uma vez, minha mãe me abraçava carinhosamente e me dizia coisas que eu não entendia, mas seu tom de voz fazia com que me sentisse aplacado em meu desespero. Isso tudo era feito espontaneamente e com amor. Essa capacidade de minha mãe de acolher minhas primeiras angústias e ansiedades, talvez tenha estimulado em mim autoconfiança e uma relação com o mundo menos ameaçadora, mais amigável.
    Hoje, não me é possível relembrar dessas primeiras experiências emocionais, mas fica a sensação e a impressão de ter sido acalentado por aquelas mãos ternas, aqueles seios quentes e pelos beijos doces.
      Claro que minha mãe não era perfeita, aliás, ninguém o é. É óbvio que existia o reverso da medalha, isto é, havia momentos em que minha mãe, por várias razões e limitações emocionais, não era capaz de conter completamente minhas solicitações. Sadia ou louca, mas com garra e amor, me deu a luz, me preparou para a vida. Sem seus cuidados, talvez não tivesse sobrevivido àquela turbulência emocional.
    Penso que hoje, talvez desejando fazer alguma reparação e, num gesto de gratidão, esteja querendo inverter as funções e pô-la no meu colo, ser continente e paciencioso com ela, acolhê-la com respeito e profundo amor. Tenho certeza que minha mãe, apesar de suas limitações, foi a mãe que pôde ser.

“...De noite, alta noite, quando eu já  dormia |  Sonhando esses sonhos de anjos dos céus, | Quem é que meus lábios dormentes roçava, | Qual anjo da guarda, qual sopro de Deus? | Minha mãe...” (Casemiro de Abreu).

4 de maio de 2015

Obesidade: Causas Psíquicas

Félix F. Elvas Pequeno

                  Estudos realizados mostram que a maioria dos casos de obesidade são devido a problemas emocionais, problemas de cabeça mesmo. São as pessoas que caem de boca na comida porque estão muito ansiosas, carentes, sentindo-se vazias internamente e muito lesadas na sua auto-estima.
                  A obesidade derruba a auto-estima, provoca constrangimentos, inibições e sentimentos de menos-valia. Enfim, complica a vida de muitas pessoas, deixando-as limitadas e deprimidas.
            Os gordos tentam emagrecer fisicamente: fazem exercícios físicos exaustivos, freqüentam “spa”, malham freneticamente em academias, se submetem a dietas rigorosas, às vezes, frustrantes. Correm atrás de soluções externas para acabar com a gordura, o que ajuda, mas não resolve definitivamente sua obesidade, pois as causas são psíquicas.
            Obesos são altamente gulosos, pois inconscientemente estão fixados na fase oral do desenvolvimento do “Eu”, onde a boca constitui a principal fonte de prazer. A fase oral começa com o nascimento e termina normalmente com o desmame. Há aqueles que não conseguem atravessar essa fase e ficam “amarrados” nela. Não é que a pessoa não se desenvolva, cresça para as fases seguintes. Ela passa, sim, para as demais, porém vai carregando consigo traços dessa fase anterior. Por isso, dizemos que ela se fixa em tal período do desenvolvimento do “Eu”.
            Assim, as pessoas fixadas nessa fase oral tendem a manter a boca como sua região de excitação e, inconscientemente, tendem a se fixar no seio materno como, também, a depender dele. Conseqüentemente, tais pessoas buscam na comida um substituto inconsciente daquele seio materno. Em outras palavras, os gordos são pessoas que cresceram de tamanho, ficaram aquela “coisona”, mas no fundo estão regredidos emocionalmente como um bebê insaciável e dependente da mãe-seio (comidas engordativas).
             O gordo precisa é emagrecer sua mente, abster-se de suas idéias onipotentes, fazer uma dieta mental para então emagrecer fisicamente. Como? Conhecendo-se melhor e tomando consciência dos aspectos inconscientes que o levam à obesidade. Quais aspectos seriam esses? Dentre vários, cito: voracidade excessiva (ânsia impetuosa e insaciável, que excede aquilo de que a pessoa necessita), impulsos autodestrutivos, fantasias onipotentes, carência afetiva, repressão das emoções e sentimentos de inferioridade.
             O que o gordo não sabe é que ele está tomado por um apetite muito grande, não de comer, mas sim de viver, de amar e ser amado. Ele tem fome de uma vida plena e feliz. No fundo, o obeso é uma personalidade rica, bela e com muitos recursos internos. São pessoas grandiosas em qualidades e bondades internas. Mas, infelizmente, o gordo não tem consciência desses recursos internos, buscando-os em comidas “engordativas”. Só lhe interessa o mundo quente de calorias elevadas, quem sabe, como substituto de caloria humana, afeto quente e caloroso.
            O obeso precisa tomar consciência de suas possibilidades e limitações; e conter dentro de si seu bebê voraz, movido, este, por impulso de morte (que muitas vezes vem embrulhado em papel de presente, como comidas deliciosas, gostosas, bonitas, prazerosas, apetitosas, mas sem substâncias nutricionais), entupindo-lhe de gordura que pode provocar enfermidades como infarto, hipertensão, dentre outras.



18 de abril de 2015

Ser Só


Félix F. Elvas Pequeno

      Nós vivemos em comunidade, em família. Somos casados, temos filhos, enfim, estamos o tempo todo interagindo uns com os outros, mas somos sós. Só, no sentido de sermos separados mentalmente, de sermos diferenciados um do outro. Estamos juntos, mas Um não é extensão do Outro. Cada um tem sua própria identidade que deve ser respeitada, não é posse do outro. 
      Sentir-se separado é angustiante, dá medo, mas é inevitável para o crescimento emocional da pessoa. Ser só é fundamental para poder se envolver com o outro. É saber expandir-se em direção ao outro, e depois se retrair em direção a si mesmo. Para eu poder me envolver com o outro, tenho, antes, que reconhecer que sou só, separado, distinto do outro, um ser singular.
      A angústia de separação é um processo normal e está presente em nosso dia-a-dia. Quando aprendemos a “amansar” a angústia de separarmo-nos do outro, ela então se torna fonte do desejo ardente de viver. Amansar a solidão não é acabar com a angústia, mas é encará-la e utilizá-la a serviço da vida. Quero dizer, sentir-se só significa tomar consciência de que se é um ser único, que o outro também é único, e a relação que se venha a manter consigo mesmo e com o outro pode vir a ser rica e privilegiada. Ser só é ter um mundo mental próprio e independente do outro.
      Porém, quando a angústia de separação é indomável e excessiva, ela é experienciada como terror sem nome e a sensação é de morte iminente. A pessoa se sente num estado de abandono sem fim. Sentindo-se invadida por essa angústia indomável, a pessoa não consegue se sentir separada mentalmente da outra. Fica dependente, grudada, misturada e confundida com o outro. Os seus relacionamentos ficam doentios e a pessoa vive um total estado de indiferenciação: ninguém sabe quem é quem. Viver junto, sem estar separado emocionalmente, torna-se torturante, entediante e aprisionante. Pode ocorrer perda de identidade que é a causa de muitas doenças físicas e mentais. 
      A maturidade emocional vem quando conseguimos evoluir para um estágio de individualização: Eu sou eu e Você é você. Quando conseguimos ser só, então os nossos relacionamentos ficam mais sadios e podemos fluir livremente para o amor.

“Eu faço minhas coisas, e você faz as suas,
Não estou nesse mundo para viver de acordo com as suas expectativas
E você não está nesse mundo para viver de acordo com as minhas
Você é você, eu sou eu
E se por acaso nos encontrarmos, é lindo.
Se não, nada há a fazer.”    

 (F.Perls)

2 de abril de 2015

A História de “Zé Dividido”

Félix F. Elvas Pequeno

   Era uma vez um homem que “enxergava” a si mesmo, as pessoas e o mundo somente com um olho. Sua visão era parcializada. Ele era pouco compreensivo com a “mãe natureza”, imaginava que os frutos que ela lhe dava eram somente maravilhosos ou somente muito estragados. Para Zé Dividido, não havia meio termo: ou tudo era ótimo ou tudo era péssimo. Era tudo ou nada, oito ou oitenta. Não existia o amar alguém e também odiá-lo. Zé via o mundo somente preto ou branco, não havia nuanças de cores. Ele não aceitava sentir-se frágil, às vezes, e, noutras, forte. Era muito exigente consigo mesmo e com os outros. Sonhava em ser perfeito. Tinha o desejo (onipotente) de ter seus bolsos cheios de verdades e certezas. Ter dúvidas, jamais. Achava-se muito esperto, e quando falhava, se sentia totalmente idiota. Ele somente queria ser um vencedor. Não suportava lidar com separações e perdas. Esforçava-se ao máximo para ser somente muito poderoso, caso contrário seria um zé-ninguém fracassado.
      E assim ele ia levando sua vida, hipnotizado pelos extremos. Seu “eu” estava todo dividido, espatifado em partículas. Não havia integridade. Sentia-se o tempo todo perseguido e injustiçado. Zé desejava ser só de um jeito e praguejava ter ora uma "parte muito boa",ora outra "parte muito ruim".  
      Um belo dia, Zé foi atravessar uma avenida, mas ficou cismado. Parou bem no meio dela, divididíssimo, e se perguntou: “Vou para a calçada que somente faz sombra, ou volto para a calçada que somente faz sol? Para que lado eu vou?”. Repentinamente, veio um automóvel e o atropelou. Acertou bem em cheio, no meio dele. Então, partiu-se em duas partes: “parte muito boa”, que foi parar na calçada que somente fazia sombra, e “parte muito ruim”, que foi parar na calçada que somente fazia sol. Desse dia em diante, cada “parte” seguiu sozinha seu caminho pela vida.
  Passaram-se muitos anos, quando, por uma “coincidência”, “parte muito boa” e “parte muito ruim” encontraram-se num “beco sem saída”. Ambas olharam-se nos olhos e, emocionadas, disseram ao mesmo tempo: -“Puxa, como foi bom te reencontrar. Que saudades! Fiquei esse tempo todo caminhando sozinha pela vida, me indagando, e descobri, aprendendo com as experiências emocionais doloridas, que você me faz muita falta. Você me completa. Não consigo viver sem você.” Abraçaram-se, agraciaram-se, fizeram as pazes e resolveram formar um par. As duas partes se aproximaram uma da outra, e ficaram mais integradas. Daí para frente, caminharam juntas pela estrada afora, de mãos dadas.
    Desse dia em diante, Zé Dividido reconheceu que era simplesmente gente; que ora podia errar, ora acertar; ora perder, ora ganhar. Passou a ser mais tolerante consigo, com as pessoas e com a vida. Começou a admitir que as pessoas as quais amava também podia odiá-las. Aprendeu que a perfeição é uma maldição que maltrata o coração. Que não há verdades nem certezas. Passou a ter dúvidas. Percebeu que a sua vida e o mundo continuarão a se movimentar e a se modificar, às vezes com amor, alegria ou felicidade, e às vezes com turbulência, ódio, raiva ou infelicidade. Enfim, descobriu que ele e as pessoas não são somente de um jeito; que há, na mesma moeda, dois lados; que “a mão que afaga é a mesma que apedreja”. Mais humilde idealizava menos, adquirindo o reconhecimento de si e das outras pessoas por inteiro. Zé também descobriu e aceitou que tinha um corpo com muitas partes, e não só duas, um corpo com mil almas...
      Zé abriu o outro olho, e enxergou a si mesmo e a “mãe natureza” com os dois olhos, isto é, com uma visão globalizada. O mundo ficou colorido. Sua alma tornou-se aberta, amorosa, rica e bela, uma pessoa nova, outra. Passou a reconhecer suas limitações e suas possibilidades diante da vida.
      A história termina aqui. Entrou por uma porta e saiu pela outra. Quem quiser que continue ou conte outra.

17 de março de 2015

O Trabalho Artístico do Psicanalista

Félix F. Elvas Pequeno

      Este artigo é apenas um jeito de ver a psicanálise como expressão artística.
  O psicanalista faz interpretações e construções calcadas no saber psicanalítico, mas, principalmente, usa de sua sensibilidade, criatividade e, sobretudo, de sua intuição, que é a própria manifestação artística. Ele, assim como o artista criador, vive emoções multicoloridas quando realiza seu trabalho.
      O artista, bem como o psicanalista, cria. Criar é tirar do “nada”, mas esse “nada” é algo que não é perceptível num olhar superficial, requer um olhar profundo.
    O psicanalista vai escarafunchando, como um arqueólogo, o mundo inconsciente do paciente, e descobre que lá dentro não há somente escuridão, monstros, demônios perseguidores ou bruxas. Há, sobretudo, claridade, anjos, um tesouro rico em qualidades, bondades, capacidades. Há obras de arte preciosas, adormecidas, que podem ser acordadas.
    O psicanalista capta o sofrimento do paciente com seu coração materno, amoroso, acolhedor e paciencioso. A dupla, paciente-analista, vai caminhando por dentro dos seus inconscientes, viajando pelas paisagens multicoloridas, sem memórias e sem pressa. Ele fica em comunhão com o paciente e formam um par que faz vôos pelo universo inquieto de suas mentes, ora vôos  rasantes, ora vôos altos.
  O paciente comunica seu mundo mental ao psicanalista, experienciando-o e revivendo-o na relação transferencial que se estabelece entre o par. Por transferência, entenda-se uma relação emocional da dupla, vivida no presente, no “aqui-e-agora” do encontro analítico. O psicanalista, permitindo-se tocar pelos seus sentimentos, comunica ao paciente sua compreensão desta relação, com a proposta de facilitar mudanças na mente do paciente. Este, por sua vez, expressa sua história de vida com suas múltiplas “transformações” e o psicanalista vai se deixando tomar lugar das imagens originais (pai, mãe, irmãos) do paciente. À medida que este sente que é acolhido pelo seu analista, vai deixando fluir livremente seus sentimentos e conflitos, que estão sendo agora revividos com as mesmas peculiaridades que havia na situação original. O analista amplia seu espaço interno para que as emoções primitivas do paciente encontrem ressonância e sejam traduzidas em palavras que tenham significados emocionais para o paciente. O que o psicanalista põe em palavras faz eco para o paciente e o assegura de que seu parceiro está em sintonia emocional com ele. A comunicação entre ambos é feita de inconsciente para inconsciente. É abrindo este espaço interno de objetos brilhantes e coloridos que leva o analista a ser um artista em seu trabalho, assim como o pintor quando pinta, o escultor quando esculpe e o músico quando compõe.
      O analista, mantendo sua unidade psíquica, permite que as emoções do paciente entrem em seu mundo mental e se espalhem como tintas que vão deslizando e colorindo seu espaço interior.
    Juntos, analista e paciente, vão lapidando o diamante bruto que já existe dentro da mente do paciente, talvez, até então, despercebido. Cada sessão com o mesmo paciente é um novo encontro artístico, onde se produzem obras de arte belíssimas.
      À medida que o analista vai evoluindo, principalmente com a ajuda de sua análise pessoal, ele vai abrindo espaço para que se torne criativo, verdadeiro e amoroso no seu trabalho. A análise pessoal bem sucedida pode provocar mais limpidez de percepção, e, principalmente, o autoconhecimento, que é fundamental para criar um terceiro olho, o “olho analítico”.
    Ambos, artista e psicanalista, desenvolvem um trabalho artesanal, onde, através de um mergulho profundo para dentro de si, resgatam suas próprias riquezas internas, e as oferecem, um, o artista, ao seu expectador, o outro, o psicanalista, ao seu paciente.

28 de fevereiro de 2015

Cegueira Mental e Verdade

Félix F. Elvas Pequeno

       No dia 03/12/94, participei da palestra sobre “Verdade e Mentira em Psicanálise: O mito edípico e o mecanismo de fazer vista grossa”, proferida pelo psicanalista Roosevelt Cassorla, promovida pelo Centro de Estudos de Psicanálise de Moji-Mirim (CEPsi). A fala de Roosevelt me tocou, não sei se pelas palavras doces e sábias do palestrante e/ou pela minha entrega à experiência emocional daquele momento.                                                                                            
    Venho nesse artigo passar ao leitor algumas idéias que estão vivas dentro de minha mente agora. Estou pensando com meus botões, como é que nós fazemos “vista grossa” (não querer enxergar com os olhos da mente) nas nossas relações com a família, com o trabalho, com as  instituições,  com a sociedade e principalmente na nossa relação conosco mesmo. Começando por nós, psicoterapeutas. Nossos pacientes vêm à psicoterapia buscar alívio para seus problemas, mas ficam incomodados, ameaçados ao escutar sobre suas verdades. Às vezes, ameaçam abandonar o tratamento e o psicoterapeuta é mobilizado pelo receio de perder esse paciente, e não pode trabalhar os sentimentos que tal ameaça lhe mobiliza (contra-transferência). A dupla psicoterapeuta - paciente fica ameaçada, faz “vista grossa” aos sentimentos que surgem no encontro. Ficam os dois num “faz de conta” ou numa folia a dois. Nas instituições psiquiátricas ocorre algo semelhante: o técnico de saúde mental geralmente entra em conluio inconsciente com a “filosofia” filicida da Instituição-mãe, pelo medo de ser demitido, e se cega.
A dupla Instituição (mãe) e o técnico (filho) mortificam o Eu do paciente, ou em casos extremos, fazem ocorrer algo parecido com a tragédia edípica. Também ocorre da Instituição praticar filicídio com os técnicos e estes reagirem tentando praticar matricídio com a Instituição-mãe.
    Estes mecanismos de cegueira mental, “vista grossa” e mentiras, ocorrem não somente em Instituições Psiquiátricas, mas também em empresas, escolas, governos e outras instituições, onde haja relação humana.. Acho que cada leitor pode ir se indagando a respeito das questões aqui levantadas.
  No seio familiar mentimos ou não queremos nos dar conta das relações atrapalhadas pais-filhos. Por exemplo: um dos pais capta que seu filho adolescente já é capaz de se cuidar sozinho numa festa de jovens, mas às vezes, um deles (pai ou mãe) inconscientemente, repete conselhos controladores: “Cuidado com drogas, use camisinha, se esquive das más companhias” etc. Também acontece o contrário, quando os pais “sacam” que seu filho usa drogas, mas ficam cegos ou fazem “vista grossa” diante da verdade. Encarar a realidade é doloroso, mas não há crescimento sem dor. Portanto, evitar a verdade pode parecer seguro e confortável, mas é o mesmo que arrancar os próprios olhos.
    Socialmente, também fazemos “vista grossa”, mentimos para nós mesmos, quando nos encontramos com amigos, e estando chateados, tristes ou ressentidos, recebemos aquele cumprimento: “Tudo bem?”, e respondemos: vagamente:“Tudo bem, e você?”. Mentimos para nós e para o outro. Os dois se esquivam. Não temos tempo para conversar. Quando não conversamos, ficamos encapsulados no nosso autismo, nos defendendo do contato afetivo-emocional.
    Assim, mentindo, ficamos “de bem”, “numa boa” com os nossos pacientes, com as instituições, com os filhos, com os amigos, quando fechamos os olhos da mente à verdade. Lembro-me de quando Dr.Bion dizia ao Dr. José Américo Junqueira Mattos, quando este fazia análise pessoal com aquele:
“... assim também ocorre aos que procuram a Verdade, ficam expostos, vulneráveis... daí o medo que ela inspira ao senhor e a todos que a buscam...”
  Penso que o contrário de “vista grossa” é a verdade e a responsabilidade Nós, psicoterapeutas e técnicos de saúde mental, podemos contribuir com o leitor de jornais e revistas tentando levar a nossa compreensão da mente humana à população. Acho que aplicar o saber psicanalítico em Instituições, escolas, empresas e na política é uma maneira de estimular o crescimento emocional do nosso país-bebê e ajudá-lo a sair do estado primitivo em que se encontra. Nossos políticos e governantes são “experts” em mentiras e “vista grossa”, imaginando enganar ao povo. Que ilusão! Pois, felizmente, nosso povo está mais consciente de suas propostas onipotentes. E há aqueles que ainda fazem “vista grossa” aos discursos delirantes dos políticos, negando suas limitações. Alguns psicanalistas “famosos” se resguardam em seus consultórios, entre quatro paredes, fazendo “vista grossa” à realidade externa. Não conseguem discriminar o contexto analítico do social. Psicanálise é vida, é tê-la não somente em gabinetes, mas vinculá-la ao meio sociocultural. Tais psicanalistas ficam calados e, sobretudo arrogantes, driblando seus verdadeiros sentimentos e sua própria formação psicanalítica.
Freud, há muitas décadas atrás, já escrevia artigos tentando usar do seu saber para compreender os mistérios dos romances, da arte, da cultura e da religião. Já recebi algumas críticas de psicanalistas que diziam: “Você escreve artigos, textos e posta-os nas redes sociais, ficando se expondo publicamente. O que seus pacientes vão pensar de você?”. Mas há outros como Rubem Alves, Jurandir Freire, Waldemar Zusman, que, nos momentos de folga de seus gabinetes, escrevem artigos  e dividem seu saber psicanalítico com os leitores.
    Finalizando, penso que a vida se faz com verdades e responsabilidade pelo que somos e pelo o que fazemos, apostando na nossa ousadia e sustentando-a.  "Todos nós odiamos a tempestade que implica o ato de rever nossas visões; é muito perturbador pensar que poderíamos chegar a mudar a tal ponto e sentirmo-nos compelidos a mudar de parceiro ou profissão ou país ou sociedade. Assim a pressão para dizer “daqui não passo” estabelece uma resistência ao aprendizado.” Bion, “Conversando com Bion” - Editora Imago. O que escrevo aqui é meu jeito de pensar singular e não genérico. Os poetas, os pintores, os escritores, os compositores não ficam cegos aos seus sentimentos e desejos, são essencialmente verdadeiros. Eles enxergam com os olhos da mente, assim como os cegos, e deixam suas criações maravilhosas tocarem nossos sentimentos mais profundos.

6 de fevereiro de 2015

O Normopata

Félix F. Elvas Pequeno

         Era um homem como a maioria dos homens: inutilmente normal, “normopata”.
         Era frio, contraído, calculista e arrogante. Cara amarrada, ensimesmado e “paranóico”. Cheio de idéias bem-arrumadas e limitadas. Pensamento concreto, sem subjetividade. Face pálida, olhar de aço e severo, sorriso amarelo e furtivo.
         Envolvia-se nas conversas, sempre querendo sair-se vencedor. Posicionava-se onipotentemente; sua fala era estudada e sedutora. Não tinha espontaneidade nem criatividade. Permitia-se programar pelos regulamentos do sistema. Obedecia cegamente sem questionar, pois precisava ser amado e aplaudido. Achava que ser normal era fazer tudo igual aos outros, tudo dentro dos padrões e das regras. Perfeccionista. Não podia diferenciar-se, pois estava misturado aos outros, massificado. Não tinha opinião própria, perdera sua identidade. Esquecia-se de seus desejos e realizava os dos outros. Tinha dentro de si um “super-eu” severo que o reprimia. Não podia mostrar seus verdadeiros sentimentos, tinha medo de ser punido.
           Seus beijos eram gelados. Seus abraços, frouxos e breves. Às vezes, dava algumas gargalhadas histéricas, na tentativa de ser alvo de atenção. Pensava grande: tinha a doença do trabalho, trampava quinze horas por dia para ter sua casona e seu carro importado. Ficou  estressado e escravo do trabalho. Queria ser um homem de sucesso. Esforçava-se ao máximo para ser competente e chegar à excelência. Fazia tudo o que era desejado pelo sistema que o transformava em objeto, eliminando seu pensar e agir subjetivo. Vivia como se estivesse numa corrida sem fim. Ritmo intenso. Alta velocidade. Receitas rápidas. Pratos prontos.
          Ele tinha medo do novo, do desconhecido. Era estereotipado – agia do mesmo modo quando as circunstâncias mudavam - e insosso. Esforçava-se ao máximo para ficar inocente, fugindo da raia e não se comprometendo com a verdade.  Às vezes, ele tinha seus próprios desejos e perguntava ao “super-eu”: “Posso?” Ao que este respondia: “Não, nem pense nisso. É contra os regulamentos. Não se atreva”.
     Por outro lado, sua subjetividade o instigava, dizendo: “Seja criativo e espontâneo. Tenha qualidade de vida. Deixe que os outros se “queimem e brinquem com seu fogo”. Sugue a essência da vida e dê asas às suas fantasias. Aventure-se, viva o novo, o desconhecido.” Mas a voz do “super-eu” vencia em sua mente, dizendo num tom ameaçador: “Não dê ouvidos a ela (sua subjetividade) pois é tentadora e contrária às regras. Não se rebele, pois ficará cheio de culpa. Seja “normal” e inocente. Só assim será um vencedor e chegará à excelência.”
         Ficou sem mente, só havia um cérebro programado. O sistema fazia com ele o jogo das ilusões, e ele ia perdendo cada vez mais sua sensibilidade. Achava normal mentir, controlar as pessoas, usar meias-verdades’, fazer vista grossa. Tornou-se um homem politicamente correto.
          Virou um autômato, um homem-máquina.
     Que pena, nunca mais teve desejos nem sonhos. Sua alma adoeceu e seu coração ficou petrificado. Na sua vida não acontecia nada de emocionante, nada de extraordinário, todos os seus dias eram iguais, sem alegria, sem questionamentos, sem cores, sem paixão. Morreu mentalmente.

22 de janeiro de 2015

Psicanálise e Neurociência

Félix F. Elvas Pequeno

          Os progressos da neurociência nada ensinam sobre o funcionamento do inconsciente descoberto por Freud. Não é possível reduzir os sentimentos, desejos e conflitos aos comandos cerebrais. A neurociência não consegue explicar as interferências do inconsciente nas atitudes das pessoas. O inconsciente não pode ser diluído no cérebro e/ou anestesiado.
          Hoje, doenças como a esquizofrenia, o transtorno bipolar, o transtorno de pânico e a depressão são tratadas com drogas de última geração. Claro que os estudos mostram que os anti-psicóticos e antidepressivos ajudam em muito no tratamento das patologias orgânicas. Mas, somente com as drogas, os pacientes não conseguem ter compreensão interna da dinâmica do seu mundo mental. Será que o desenvolvimento da neurociência irá, com suas drogas, solucionar os nossos conflitos inconscientes? Penso que não. A neurociência não irá explicar as relações homem-mulher ou qualquer outra relação que temos ou venhamos a ter em nossa vida. Não nos ensina a amar, ter tesão ou gozar.
          A psicanálise não tem a pretensão de resolver os conflitos psíquicos num passe de mágica ou num “lava-rápido”. Ela é incompatível com propostas mágicas e milagrosas, e incompetente para deixar as pessoas tranqüilas - tranqüilidade há somente no cemitério, onde descansamos em paz - ela não nos promete felicidade, nem pretende curar sintomas.
       Talvez, uma das propostas da psicanálise seja levar o paciente a tomar consciência das suas possibilidades e limitações, ou seja, promover o autoconhecimento, e, a partir daí, ter uma visão mais globalizada de si mesmo e do mundo. O ser humano está condenado a não escapar da angústia e é através dela que podemos crescer emocionalmente. Há uma tendência das pessoas em não querer saber nada da subjetividade humana. Estamos nos tornando, cada vez mais, imediatistas e concretos. O pensar é visto como algo que atrasa o ritmo da vida. Engole-se um antidepressivo e o mundo que se lixe. Essa “pílula da felicidade”, usada como cosmético, vai encobrir nossos desejos e conflitos psíquicos.
          Pacientes que somente enfiam medicamentos pela goela abaixo não têm o suficiente para si. Eles merecem mais do que ficar bem-humorados ou eufóricos. Temos, além do cérebro, uma memória inconsciente que registra tudo: infância, mãe, pai, irmão e o mundo relacional onde se desenrola a trama psíquica de Narciso a Édipo.
          A psicanálise não deve competir com neurolépticos e abordagens terapêuticas que buscam o alívio rápido com eliminação das angústias e dos sintomas. Psicanálise não serve mesmo para isto. Ao contrário, considera que os sintomas e angústias têm um sentido e função, e a eliminação pura e simples deles impediria que se chegasse ao âmago da questão. Ela não se ocupa em oferecer alívios imediatos para afastar os indivíduos do sofrimento. Não considera, inclusive, que se possa viver sem sofrer ou que haja desenvolvimento pessoal sem sofrimento. A Psicanálise ocupa-se de investigar e conhecer a natureza da mente humana, a essência da condição humana, numa viagem rumo ao desconhecido. Fazer psicanálise é um privilégio, que quem tem sabe o quanto é necessário.
          Quem sabe, neurocientistas e psicanalistas juntos, irmanados e sem disputas narcísicas, possam prosseguir suas pesquisas sobre a investigação dos fenômenos patológicos mentais, e ajudar seus pacientes a terem uma mente menos sofrida. Ambos os profissionais, não podem, isoladamente, desvendar todos os mistérios que envolvem o nosso psiquismo. Penso que há pacientes que precisam de medicamentos, até mesmo para poderem chegar ao divã do psicanalista, bem como há outros que, mesmo tomando medicamentos, irão beneficiar-se em muito do tratamento psicanalítico.
        

6 de janeiro de 2015

Aos Tímidos...

 Félix F. Elvas Pequeno


      A timidez é um sentimento de incapacidade que imobiliza muitas pessoas. Impede-as de ter uma vida mais rica e plena em relacionamentos. O tímido se retrai e, assim, congela seu afeto. Ele vai cheio de esperanças e expectativas para um lugar, ao encontro de outra pessoa ou mesmo a uma reunião onde trabalha, mas, de repente é invadido por um medo monstruoso de se expor. E o que acontece? Esconde-se cabisbaixo ou arranja uma desculpa e acaba não mostrando suas capacidades. É invadido por um sentimento de menosvalia. Fica atrapalhado, engasga, tropeça e fica se sentindo uma formiguinha frágil, lá no chão. Ele tem medo de não agradar às pessoas, de não conseguir dar o recado e de não ser correspondido. Carrega dentro de si um pressentimento de que não vai dar certo, que vai embananar-se todo. Vive fantasias inconscientes de não ser admirado, de não ser correspondido, pois quando criança tinha essas mesmas fantasias de que não era valorizado pelos seus pais quando mostrava suas capacidades. Então foi crescendo e transferindo para outras pessoas aquelas fantasias de quando criança. O medo de se juntar a outras pessoas foi aumentando e o aprisionou dentro de uma concha onde se protege e se esconde.
      O tímido tem medo de se entregar ao novo, ao desconhecido. Dentro de sua cabeça, tudo vai acontecer do jeito que ele imagina. Sua mente está cheia de certezas. Ele já sabe tudo o que vai acontecer antes do encontro, portanto, delira e diz: “Se eu for àquele encontro (ou àquela reunião) não vou ser correspondido, não vou me fazer entender, não vou ser capaz”. Pronto, se enfeitiçou. Sente-se incapacitado, um lixo. Ele conta historinhas de monstros e terror para assustar a si mesmo.
      O que fazer? Quebrar o feitiço. Como? Pensando. O que é pensar? Questionar-se com humildade: “Será que sou profeta ou vidente? Será que tudo o que imagino vai acontecer? Será que eu sei o que se passa dentro da cabeça das outras pessoas, ou estou projetando nelas meus monstros internos? O pensar quebra as fantasias onipotentes, as certezas, o delírio, o feitiço”.
      Em seguida, após o aprender a pensar, o tímido deve ir em frente, não dá para nascer de novo. “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, portanto, fica aí a proposta para o tímido: “amansar” o bicho, o monstro que habita sua cabeça e que é projetado no mundo externo. O filósofo Nietzsche dizia haver encontrado dentro de sua cabeça um bicho assustador, um monstro; mas descobriu que esse “monstro” era brincalhão e sorridente.