20 de novembro de 2014

Terapias Alternativas

 Félix F. Elvas Pequeno


         Ultimamente, tenho ouvido, visto e lido anúncios sobre “tratamentos através de cursos de fim-de-semana, massagens para equilibrar energeticamente a mente, livros de auto-ajuda, terapias on-line, palestras e seminários para "curar" doenças mentais, tratamentos religiosos e milagrosos, enfim, uma série de propostas sedutoras que estimulam aquelas pessoas desesperadas a buscarem freneticamente ajudas mágicas. Tais “tratamentos” que estão se proliferando dia a dia, são duvidosos, vendem um “conhecimento”da mente por atacado, e prometem curas rápidas. Tentam doutrinar e fazer lavagens cerebrais naquelas pessoas mais sensíveis e ingênuas. São posturas dogmáticas, chamativas, cheias de mandraquices e sem referencial teórico e científico.
         Nós, que trabalhamos como psicoterapeutas, constatamos como é difícil a investigação psicológica profunda dos processos mentais. Sabemos como é dolorido e lento o crescimento interno. O que somos hoje é proveniente de relacionamentos primitivos, que estão guardados dentro do nosso inconsciente, principalmente o 1.o ano de vida na relação mãe-bebê, e posteriores relações com família, cultura e grupos sociais. O psicoterapeuta não tem o poder de mudar ninguém. Sua postura é neutra e não-moralista na relação com o paciente. Cada pessoa tem sua história pessoal e o seu ritmo de trabalho mental. Tentar dar conselhos, ou direcionar as idéias dessas pessoas é querer encaixotá-las, condicioná-las e paralisar a dinâmica dos seus pensamentos.
     A própria mídia, através de reportagens e anúncios, estimula a mitificação de “terapias alternativas” e livros de “auto-ajuda”. “... todo mito é perigoso, porque induz o comportamento e inibe o pensamento...” (Rubem Alves, em Filosofia da Ciência).
         O psicoterapeuta de formação séria interpreta e apenas facilita ou ajuda o paciente a entrar em contato com o seu inconsciente, o próprio paciente é quem faz suas “transformações” (se puder e se quiser) e irá viver dentro de suas possibilidades e limitações.
         Questionem, indaguem sobre tais "tratamentos" e livros de auto-ajuda. Penso que cada um tem a liberdade de buscar o que achar melhor para si. Apenas quero deixar aqui algumas idéias do que penso enquanto técnico de saúde mental. Nós, psicoterapeutas, geralmente ficamos enclausurados em nossos consultórios, comunicando-nos entre si através de revistas e palestras especializadas, talvez encapsulados em nossos círculos narcísicos, e nos esquecemos de passar informações aos leigos, de forma que fica mantido o preconceito de que fazer psicoterapia é apenas para uma elite. Freud, em suas “Conferências Introdutórias da Psicanálise” (1916-1917), dirigia-se a leigos.
         Concluindo: temos que ter a humildade de reconhecer que pouco sabemos sobre a mente humana. Portanto, é charlatanismo induzir e/ou programar os pensamentos das pessoas. “... o que caracteriza o homem é a riqueza e sutileza, a variedade e versatilidade de sua natureza. É ridículo falar do homem como se fosse uma proposição geométrica. A contradição é o próprio elemento da existência humana. O homem é uma estranha mistura de ser ou não ser...” (Cassirer)
               

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