19 de novembro de 2014

Adolescência Drogada

 Félix F. Elvas Pequeno


            Vou tentar passar aos leitores algumas idéias que me vêm à mente, provenientes de  estudos de literatura psicanalítica e de meu trabalho com adolescentes drogados que desenvolvo em consultório. Tenho de ser sintético, pois é um artigo para jornal, e o espaço é limitado.
            Começarei pelas drogas, que são substâncias que inibem, acentuam e modificam as atitudes dos jovens drogados. Entre as drogas mais usadas estão: álcool, crack, maconha, cocaína, anfetamina, tranqüilizantes, medicamentos estimulantes e depressores. O jovem geralmente começa tomando bebidas alcoólicas, depois maconha, e segue nesse embalo até chegar a consumir drogas pesadas, e se torna um escravo dela (adicto à droga).
            A adolescência é uma fase difícil, pois o adolescente está perdendo a infância e se empenhando para ser adulto. Nesta fase há “lutos”: luto pelo papel e identidade infantil, luto pelo corpo infantil, e luto pelos pais da infância que os protegia e os apoiava em todos os instantes. Portanto, é um momento de mudanças, de “turbulências emocionais”, de inseguranças, de medo diante do desconhecido e de questionamentos. Às vezes, o adolescente tenta “reformar o mundo”, e não conseguindo agüentar as frustrações inerentes às perdas, ele vai buscar na droga as soluções para as suas angústias. Ele tenta, estupidamente, querer ser mais do que pode ser e ter mais do que pode ter. Quer ter  a “coisa boa”- a droga (inconscientemente, o seio da mãe) - dentro de si. O adolescente com a droga na cabeça começa a ter uma curiosidade doentia, fica arrogante e age com burrice. A droga começa a ser usada como uma maneira de esquivar-se dos compromissos, problemas, ansiedades e conflitos. O adolescente busca na droga uma saída mágica, o paraíso perdido, uma ilusão, quem sabe uma tentativa inconsciente de voltar para a barriga da mãe, onde tudo era quentinho e gostoso. Só que usar droga é também um ato de auto-destrutividade, uma forma de matar o corpo e mente. É um suicídio lento, e, às vezes, imediato (overdose). O jovem drogado quer ser aquela “COISONA” sem limites. Tenta ser o super-homem, inatingível. Não admite ser gente, limitado, frágil e humilde diante da vida. Ele imagina que é “todo-poderoso” e “maravilhoso”. No fundo, está sendo emocionalmente um bebê dividido e ameaçado, acusando os pais e o meio de serem os responsáveis pelas suas atitudes “emburrecidas”. O adolescente drogado dirige seus sentimentos, pensamentos e idéias que para si são indesejáveis, para outra pessoa, mais particularmente aos pais. Com isso se livra de reconhecer em si o problema e tenta controlar a situação, culpando os outros. É um eterno insatisfeito, não suporta frustrações, e, quando não lhe é dado o que quer, ele tenta assustar os pais e o meio, fazendo chantagens emocionais. Não consegue medir as conseqüências de seus atos. Fica “desmentalizado”, vazio e empobrecido, acabando na solidão e no “fundo do poço”.
            Convém deixar aqui registrado que o adolescente usuário de droga não é nenhum bandido, mas, sim, uma pessoa que está muito doente, muitas vezes, psicótico, pedindo socorro nas suas atitudes destrutivas e atrapalhadas. Ele está desesperado, arrebentado internamente, sofrido. Precisa de ajuda urgente. Seu rosto está vazio, sombrio ... “é sempre bom lembrar que um copo vazio está cheio de ar... é sempre bom lembrar, guardar de cor, que o ar vazio de um rosto sombrio está cheio de dor”... (trecho da música de Gil, que Chico Buarque canta).
            Ele precisa de uma mão amiga que o ajude a resgatar sua parte sadia que está anestesiada lá dentro do seu inconsciente. O uso da droga é um sintoma de uma mente desorganizada e sofrida. Por trás de todo drogado há uma história de vida triste.

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