2 de dezembro de 2014

Os "Doentes da Alma"

Félix F. Elvas Pequeno


      Outro dia, pela manhã, estava fazendo minha caminhada, quando passei em frente ao pronto-socorro municipal. Chamou-me a atenção um grande número de doentes ali reunidos, aguardando atendimento médico. Continuei caminhando e me perguntei: “Que doentes eram aqueles ali reunidos?”.
Do que eles estavam realmente doentes?”. De repente, me lembrei de uma frase, acho que do próprio Freud: “o corpo é a trincheira da mente”.
      Pois é. O corpo padece e adoece quando não conseguimos pensar. O que não conseguimos digerir na mente é vomitado no corpo. Atuamos no corpo.
      Acho que muitos dos doentes que buscam incessantemente pronto-socorros, consultórios médicos e ambulatórios, fazendo consultas, retornos e mais retornos infinitamente, estão, no fundo, doentes da alma (sede dos sentimentos e pensamentos). Eles depositam, inconscientemente, no corpo, problemas emocionais dos mais diversos: sentimentos de abandono, de não valorização, de culpa, pânico, depressão mascarada, impotência diante das exigências sócio-econômicas, dificuldades sexuais, entre outros.
      Os doentes da alma estão fixados em níveis primitivos do desenvolvimento emocional. Estão regredidos, como criancinhas pequenas. Nesses doentes não há uma separação clara entre corpo e mente, entre sensações físicas e sentimentos. São os chamados pacientes psicossomáticos. Não conseguem simbolizar com palavras. A somatização é mais primitiva. “É mais primitiva a dor de barriga do bebê antes de saber usar palavras”.
      Atualmente, o que mais vemos são milhares desses pacientes, para a felicidade dos fabricantes de remédios e das farmácias, tomados por multiplicidade de doenças. Os consultórios médicos, ambulatórios e pronto-socorros estão repletos de pessoas que são examinadas dos pés à cabeça, radiografadas em todas as posições possíveis e nenhuma doença orgânica é encontrada. Eles somatizam, isto é, dirigem, inconscientemente, para o corpo, suas emoções e conflitos emocionais dos mais variados.
      É. O nosso inconsciente imagina, cria e projeta, no corpo, doenças. Os sintomas são manifestações de angústias. O corpo é muito sensível às “coisas” que a mente produz. Lemos um poema erótico e ficamos excitados. Sofremos uma perda ou separação, então o corpo geme, fica dolorido, cansado, sem forças e travado. Os doentes da alma, muitas vezes, vão aos pronto-socorros e consultórios médicos desesperados e com “terrores sem nome”, inconscientemente, buscando proteção, carinho e colo no “médico-mãe”, em busca do “remédio-seio”. Muitas vezes, acabam fazendo verdadeiras peregrinações de médico em médico até a morte mental. Suas almas estão, no fundo, em colapso.
      Penso que os doentes da alma necessitam, sobretudo, serem tratados por “médicos da alma” - psicoterapeutas - que saibam interpretar as funções e sentidos dos seus sintomas, dando ao doente a possibilidade de organizar uma nova forma de pensamento e de mudanças de pontos de vista. Os médicos da alma auscultam além do estetoscópio, sua “escuta” é apurada, com paciência, continência, sem pressa e sem respostas prontas. Eles buscam captar nas palavras das almas sofridas, o que vai além da queixa, do “real” e do orgânico. Caminham junto com os doentes pelas paisagens de sua alma.

20 de novembro de 2014

Terapias Alternativas

 Félix F. Elvas Pequeno


         Ultimamente, tenho ouvido, visto e lido anúncios sobre “tratamentos através de cursos de fim-de-semana, massagens para equilibrar energeticamente a mente, livros de auto-ajuda, terapias on-line, palestras e seminários para "curar" doenças mentais, tratamentos religiosos e milagrosos, enfim, uma série de propostas sedutoras que estimulam aquelas pessoas desesperadas a buscarem freneticamente ajudas mágicas. Tais “tratamentos” que estão se proliferando dia a dia, são duvidosos, vendem um “conhecimento”da mente por atacado, e prometem curas rápidas. Tentam doutrinar e fazer lavagens cerebrais naquelas pessoas mais sensíveis e ingênuas. São posturas dogmáticas, chamativas, cheias de mandraquices e sem referencial teórico e científico.
         Nós, que trabalhamos como psicoterapeutas, constatamos como é difícil a investigação psicológica profunda dos processos mentais. Sabemos como é dolorido e lento o crescimento interno. O que somos hoje é proveniente de relacionamentos primitivos, que estão guardados dentro do nosso inconsciente, principalmente o 1.o ano de vida na relação mãe-bebê, e posteriores relações com família, cultura e grupos sociais. O psicoterapeuta não tem o poder de mudar ninguém. Sua postura é neutra e não-moralista na relação com o paciente. Cada pessoa tem sua história pessoal e o seu ritmo de trabalho mental. Tentar dar conselhos, ou direcionar as idéias dessas pessoas é querer encaixotá-las, condicioná-las e paralisar a dinâmica dos seus pensamentos.
     A própria mídia, através de reportagens e anúncios, estimula a mitificação de “terapias alternativas” e livros de “auto-ajuda”. “... todo mito é perigoso, porque induz o comportamento e inibe o pensamento...” (Rubem Alves, em Filosofia da Ciência).
         O psicoterapeuta de formação séria interpreta e apenas facilita ou ajuda o paciente a entrar em contato com o seu inconsciente, o próprio paciente é quem faz suas “transformações” (se puder e se quiser) e irá viver dentro de suas possibilidades e limitações.
         Questionem, indaguem sobre tais "tratamentos" e livros de auto-ajuda. Penso que cada um tem a liberdade de buscar o que achar melhor para si. Apenas quero deixar aqui algumas idéias do que penso enquanto técnico de saúde mental. Nós, psicoterapeutas, geralmente ficamos enclausurados em nossos consultórios, comunicando-nos entre si através de revistas e palestras especializadas, talvez encapsulados em nossos círculos narcísicos, e nos esquecemos de passar informações aos leigos, de forma que fica mantido o preconceito de que fazer psicoterapia é apenas para uma elite. Freud, em suas “Conferências Introdutórias da Psicanálise” (1916-1917), dirigia-se a leigos.
         Concluindo: temos que ter a humildade de reconhecer que pouco sabemos sobre a mente humana. Portanto, é charlatanismo induzir e/ou programar os pensamentos das pessoas. “... o que caracteriza o homem é a riqueza e sutileza, a variedade e versatilidade de sua natureza. É ridículo falar do homem como se fosse uma proposição geométrica. A contradição é o próprio elemento da existência humana. O homem é uma estranha mistura de ser ou não ser...” (Cassirer)
               

19 de novembro de 2014

Adolescência Drogada

 Félix F. Elvas Pequeno


            Vou tentar passar aos leitores algumas idéias que me vêm à mente, provenientes de  estudos de literatura psicanalítica e de meu trabalho com adolescentes drogados que desenvolvo em consultório. Tenho de ser sintético, pois é um artigo para jornal, e o espaço é limitado.
            Começarei pelas drogas, que são substâncias que inibem, acentuam e modificam as atitudes dos jovens drogados. Entre as drogas mais usadas estão: álcool, crack, maconha, cocaína, anfetamina, tranqüilizantes, medicamentos estimulantes e depressores. O jovem geralmente começa tomando bebidas alcoólicas, depois maconha, e segue nesse embalo até chegar a consumir drogas pesadas, e se torna um escravo dela (adicto à droga).
            A adolescência é uma fase difícil, pois o adolescente está perdendo a infância e se empenhando para ser adulto. Nesta fase há “lutos”: luto pelo papel e identidade infantil, luto pelo corpo infantil, e luto pelos pais da infância que os protegia e os apoiava em todos os instantes. Portanto, é um momento de mudanças, de “turbulências emocionais”, de inseguranças, de medo diante do desconhecido e de questionamentos. Às vezes, o adolescente tenta “reformar o mundo”, e não conseguindo agüentar as frustrações inerentes às perdas, ele vai buscar na droga as soluções para as suas angústias. Ele tenta, estupidamente, querer ser mais do que pode ser e ter mais do que pode ter. Quer ter  a “coisa boa”- a droga (inconscientemente, o seio da mãe) - dentro de si. O adolescente com a droga na cabeça começa a ter uma curiosidade doentia, fica arrogante e age com burrice. A droga começa a ser usada como uma maneira de esquivar-se dos compromissos, problemas, ansiedades e conflitos. O adolescente busca na droga uma saída mágica, o paraíso perdido, uma ilusão, quem sabe uma tentativa inconsciente de voltar para a barriga da mãe, onde tudo era quentinho e gostoso. Só que usar droga é também um ato de auto-destrutividade, uma forma de matar o corpo e mente. É um suicídio lento, e, às vezes, imediato (overdose). O jovem drogado quer ser aquela “COISONA” sem limites. Tenta ser o super-homem, inatingível. Não admite ser gente, limitado, frágil e humilde diante da vida. Ele imagina que é “todo-poderoso” e “maravilhoso”. No fundo, está sendo emocionalmente um bebê dividido e ameaçado, acusando os pais e o meio de serem os responsáveis pelas suas atitudes “emburrecidas”. O adolescente drogado dirige seus sentimentos, pensamentos e idéias que para si são indesejáveis, para outra pessoa, mais particularmente aos pais. Com isso se livra de reconhecer em si o problema e tenta controlar a situação, culpando os outros. É um eterno insatisfeito, não suporta frustrações, e, quando não lhe é dado o que quer, ele tenta assustar os pais e o meio, fazendo chantagens emocionais. Não consegue medir as conseqüências de seus atos. Fica “desmentalizado”, vazio e empobrecido, acabando na solidão e no “fundo do poço”.
            Convém deixar aqui registrado que o adolescente usuário de droga não é nenhum bandido, mas, sim, uma pessoa que está muito doente, muitas vezes, psicótico, pedindo socorro nas suas atitudes destrutivas e atrapalhadas. Ele está desesperado, arrebentado internamente, sofrido. Precisa de ajuda urgente. Seu rosto está vazio, sombrio ... “é sempre bom lembrar que um copo vazio está cheio de ar... é sempre bom lembrar, guardar de cor, que o ar vazio de um rosto sombrio está cheio de dor”... (trecho da música de Gil, que Chico Buarque canta).
            Ele precisa de uma mão amiga que o ajude a resgatar sua parte sadia que está anestesiada lá dentro do seu inconsciente. O uso da droga é um sintoma de uma mente desorganizada e sofrida. Por trás de todo drogado há uma história de vida triste.

13 de novembro de 2014

"FICAR COM": Relacionamento superficial e pobre

 Félix F. Elvas Pequeno


            Está na moda (aliás, alguém disse que “a moda é o ridículo sem objeções”) ouvirmos certas pessoas dizerem de peito cheio: “Apenas ficamos naquela noite. Foi só uma ‘ficada’ com ele(a), claro, nada sério. Na próxima balada, fico com outro(a). Vou ficando e não quero me amarrar em ninguém”.
            'Ficar com' é um relacionamento sem nenhum compromisso entre duas pessoas, abrindo espaço para continuarem livres a outros relacionamentos.
           Os “ficantes” são vorazes, insaciáveis e viciados a um sexo casual e não se envolvem, mantendo encontros do tipo uma vez só ou durante alguns dias que pode ir de uma simples troca de beijos a uma relação sexual, e depois, 'adios muchacho'. Eles são de qualquer faixa etária.
            Quem já 'ficou com' fulano acha que tem o caminho aberto para novas ficadas. 'Ficar com' consiste simplesmente em fazer o que “dá na telha”, o que dá vontade, sem nenhuma responsabilidade e envolvimento no relacionamento, sem pensar nas conseqüências da ficada. É, pensar dói!
            'Ficar' é um tipo de comportamento animal, em que somente se satisfaz o instinto de reprodução daquela espécie. Então, quem 'fica com' é cachorro com cadela, galo com galinha, gato com gata, boi com vaca, dentre outros bichos...
            O relacionamento 'ficar' somente traz satisfação imediata do desejo, sendo impossível adiá-lo ou transferi-lo para uma relação amorosa, compromissada, afetiva onde há um envolvimento profundo. Por isso, os ficantes são escravos do seu desejo. Enquanto que os que amam, são senhores do seu desejo.
            Amar é bom, mas é difícil. Implica em se entregar ao outro, até mesmo com desencontros de opiniões, frustrações, perda de privacidade, renúncias, etc... Isto é, "a rapadura é doce, mas é dura". Uma relação amorosa é conviver num plano de reciprocidade e de confiança, compartilhar respeito, admiração, devoção, dedicação e cumplicidade.
            O número de ficantes é cada vez maior, por que mais pessoas mostram inconscientemente medo de se envolver, medo do desconhecido, medo da incerteza, de perdas e surpresas – muitas vezes, muito boas.
            Ficantes revelam incapacidade de uma relação amorosa, autêntica. São narcisistas, egoístas que amam, sobretudo, a si mesmos, se autovalorizando ao extremo. Tentam retirar do outro aquilo que lhes falta. São exploradores que desejam tudo para si, transformam o outro(a) em objeto descartável, como uma coisa que só serve para ser usada e desprezada, mantendo uma relação superficial, insatisfatória, perversa, sádica e empobrecida afetivamente. E, geralmente, acabam na solidão.