10 de novembro de 2019

Sobre falar de mulher

         
Félix Elvas Pequeno

            Saber o que quer uma mulher, é uma pergunta que nem Freud conseguiu responder. “Nunca fui capaz de responder à grande pergunta: o que uma mulher quer?” (Sigmund Freud). Não vou me atraver à responder a essa pergunta, mas vou tentar escrever sobre falar de mulher. As mulheres lutaram, durante muitos anos, por direitos iguais aos dos homens e enfrentaram os preconceitos sofridos. Hoje, depois de tantas conquistas femininas, mais do que nunca é enfatizada a independência feminina diante de seus múltiplos papéis na sociedade. Apesar dessa batalha por igualdade, homem e mulher, definitivamente, nunca serão iguais.
            Penso que falar de mulher implica falar de maternidade, cuidado, afeto. Nos remetemos à imagem da sensibilidade, da coragem, da vaidade, da intuição. A mulher não é mais aquele sexo frágil de antigamente, conquistou seu espaço na sociedade. As vezes fraca, as vezes forte, ora dependente ora independente. São diversas as facetas assumidas pela mulher, fazendo com que o seu desejo seja encarado como um enigma.O lugar da mulher é onde ela deseja estar, não é onde querem que ela esteja! Se percorrermos o caminho da arte- poesias, música, pintura, por exemplo-, perceberemos como todos tentam desvendar esse o obscuro inconsciente da mulher, mas não conseguem!!
            Quando falamos em mulher, não podemos negar sua magnitude: é a única que pode conceber a vida e aquela que, na maioria das vezes, exerce a função materna, função primordial para a teoria psicanalítica. A criança tem de ser cuidada, investida e desejada. Esse papel, na maioria das vezes é exercido pela mãe; é ela quem traduz os afetos e emoções vividos pelo bebê e torna-se uma espécie de mediadora entre ele e o mundo externo, possibilitando que a criança inicie um processo de reconhecimento enquanto pessoa. É claro que ser mulher não implica necessariamente em exercer a função materna, assim como o ato de cuidar pode ser realizado por outro sujeito. Se não houver desejo de ser mãe, o valor da mulher não será menor por esse motivo.
           Enfim, mesmo que continue assumindo tantas posições na sociedade, nos parece inesgotável a tarefa de desvendar o que realmente quer uma mulher.Talvez ela queira que parem de perguntar: "o que quer uma mulher?" Porque só ela sabe e ponto final!!

(Félix Elvas Pequeno é Psicólogo e Psicanalista). Abraços afetuosos as mulheres, as quais respeito e amo profundamente, assim como amei minha mãe, que já partiu, há 2 anos, do passeio que fez aqui na terra e agora deve estar passeando por aqui e por ali...

25 de outubro de 2019

Sobre o novo amor

            Félix Elvas Pequeno

         Antigamente, homens e mulheres acostumaram-se se amar num amor assim: "eu estou com você por causa disso, ou por causa daquilo". Atualmente, mulheres e homens estão se amando e estão juntos, porque eles querem estar juntos, não existe nenhuma coerção social, e nenhuma razão. "Ninguém sabe amar outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso o contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo à porta." 
          O amor não é chegado em fazer contas, não obedece à razão. Hoje, é um amor com uma escolha mais responsável, do que o amor de antigamente, é o Novo Amor que se explica simplesmente assim: "eu amo ela porque é ela, ela me ama porque sou eu"! Nunca conseguimos explicar o motivo de estar amando. Sempre explicamos fácil o motivo da separação. Amar não se explica e pronto!! (Félix Elvas Pequeno é psicólogo e psicanalista). Abraços!

16 de outubro de 2019

Psicanálise de Casal

Félix Elvas Pequeno

     Na psicanálise de casal a escuta do psicanalista não é para cada um dos parceiros, mas sim para a relação do casal. O paciente é o casal! Num relacionamento saudável, é fundamental que haja respeito pelo o outro e pelas suas diferenças, e muitas vezes conviver com tais diferenças implica num sofrimento psíquico normal E o que fazer quando o sofrimento psíquico torna-se insuportável e doentio? A consciência sobre a existência de conflitos conjugais é indispensável para a indicação da psicanálise de casal. 
         As problemáticas mais comuns nos casais são: os conflitos relacionais e de comunicação, desentendimentos sexuais, a decisão de um divórcio, a violência doméstica e tipos diversos de relações perversas. Também há necessidade de alguns casais buscarem a psicanálise de casal como uma forma de ajuda para uma separação sem tantos sofrimentos psíquicos. Quando a relacão do casal está em crise, é fundamental trabalhar as causas da crise, para que haja transformações saudáveis na relação do casal.

(Félix Elvas Pequeno é psicólogo e psicanalista). Abraços...

9 de outubro de 2019

Existe cura em psicanálise?

             Félix Elvas Pequeno

          Milhares de pessoas andam, todos os dias, de um lado para outro. Cruzam avenidas, sobem e descem escadas, aguardam o ônibus, o metrô, de vez em quando caem nos vãos da estação e acabam sendo mastigadas pela pressa supersônica de um tempo em que não se pode esperar. Alguns, ligados no automático, pilotam seus carros, que também são automáticos. Dirigem sem ter condições de digerir a vida. Assim é que vemos, todos os dias, uma dança de corpos. Um certo bailar de pessoas que até pra sofrer não podem demorar muito. Poderíamos dizer que essa dança maluca, que não dá espaço nem para o pensamento, seria uma forma de manter a dor guardada num canto pra ver se esquece de doer? Pensar dói. Dói na cabeça, dói na alma. Questionar pode fazer com que a vida mude radicalmente. 
            Por outro lado, não pensar, não perguntar, a princípio pode até não doer no pensamento, mas dói no corpo. Panicamos, fibromialgiamos, obsessivocompulsionamos, paralisamos. É o corpo dando voz àquele pensamentozinho besta que insiste. O corpo é mestre em dizer palavras que tentamos sufocar. Palavra dói, palavra dá forma à dor, que não esquece de doer, nunca. E não é que um dia a gente se vê embolado nos fios de nossas próprias palavras sem saber como fazer pra desemaranhar? Até que algum dia, quem sabe, alguma pessoa que ande por aí destampada chega e diz: você precisa de ajuda, procure um psicanalista. Ah, mas isso é coisa de doido, confere? Então, antes de chegar a um consultório, muitas pessoas já procuraram tudo que as fizeram parecer menos malucas. 
            Outras ainda sequer procurarão uma análise, pois muitas preferem deixar os cães dormindo. Ora, se podemos ouvir seus latidos de longe, é porque não estão dormindo! Algumas chegam aos consultórios de psicanálise, apostando a última ficha. E a primeira coisa que querem saber: quanto tempo isso demora? Assim como Freud, respondemos: caminhe. Mas de fato não podemos saber quanto tempo uma caminhada demorará, pois pode ser que no meio do caminho tenha pedras, tenha pedras no meio do caminho tenha pedras no meio do caminho tenha pedras. E que diabos são as pedras? Podem ser resistências ao tratamento: transferências coloridas demais ou de menos, palavras excessivamente gozantes, enfim. 
           Desde Freud, havia pressa daqueles que o procuravam. Ele mesmo tentou, sem sucesso, encontrar um caminho mais rápido para a análise. Desistiu. É preciso escovar as palavras, como diria Manoel de Barros, e isso leva tempo. Mas afinal, quando é que termina uma análise? Tudo depende. Muitas pessoas que chegam a uma análise dão-se por satisfeitas com o processo quando a angústia diminui, quando a ansiedade deixa de causar paralisação, quando conseguiram entender o suficiente para saber de sua implicação e responsabilidade pela própria vida. Outras vão dar mais voltas, escovar mais palavras, deixarão cair mais idealizações, irão um pouco mais além na desmontagem dos significantes. Alguns atravessarão o fantasma, depois de rodear muitas e muitas vezes as pedras do meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra. 
           Muitos têm medo de voltar a sofrer do que sofriam no início, como se corressem o risco de dar passos para trás, mas a análise é um labirinto cujas paredes são nossas próprias histórias e, mesmo que passemos várias vezes pelos mesmos lugares, em nenhuma delas eles estarão iguais. É um caminho sem volta. Ao mesmo tempo em que isso é reconfortante é também assustador, pois bem sabemos que às vezes nos agarramos como carrapatos a certos tipos de dores e largá-las implicaria em correr o risco de morrer de fome, já que nossos sintomas se alimentam do próprio sofrimento.Voltando ao fim da análise, podemos dizer ainda que algumas pessoas insistem mais, ainda, derrubam as paredes dos seus próprios labirintos, quebram as pedras, reduzem tudo a pó. Mas isso só é possível quando conseguiram se desprender das paredes. Será que ao fim os cachorros voltam a dormir? Acho que não. Acho que ao fim, faz mais sentido pensar que soltamos os cachorros.
        Who let the dogs out? Ao fim estaremos curados? Existe cura em psicanálise? A sugestão de Freud em Análise terminável e interminável é que, ao invés de perguntarmos como se dá uma cura, perguntemos quais são os obstáculos que se colocam no caminho de tal cura. Penso que curar-se seria desprender-se das próprias paredes, rearranjar as pedras do meio do caminho, montar o quebra cabeça da própria história, depois desmontar e jogar as peças pra cima. Depois de tudo isso, restará o inconsciente, sempre ele, o incurável. (Síntese feita por Félix Elvas Pequeno-Psicólogo e Psicanalista, do texto de Isloany Machado-Psicanalista). Abraços...

7 de outubro de 2019

A maioria das doenças que temos são palavras presas

 Félix Elvas Pequeno         

         Jacques Lacan psicanalista francês, discípulo e reformador de muitas ideias da psicanálise de Freud, dizia que as doenças são palavras não ditas que ficam aprisionadas dentro das pessoas.
         Se você não tem coragem de falar algumas verdades que estão presas, se não consegue expressar para as pessoas quem você é, seus gostos, seus direitos, então tudo isso vai ficando reprimido dentro de sua mente e minando sua saúde física e mental.

(Félix Elvas Pequeno é Psicólogo e Psicanalista). Abraços...

25 de setembro de 2019

ID, EGO e SUPEREGO: as vozes dentro das nossas mentes

Félix Elvas Pequeno

          No momento de tomar alguma decisão, quantos de nós já não “ouviu” conselhos dentro de nossas mentes que diziam aquilo que deveríamos fazer: “Vai lá, faça isso que você vai gostar” e, ao mesmo tempo, “não faça isso, pois não é certo”. Se a mente é uma só, como que podemos ter esse embate de posicionamentos dentro de nossa cabeça? A nossa mente é dividida basicamente em duas partes: consciente e inconsciente. Metaforicamente falando, a parte consciente seria a parte visível de um iceberg, ou seja, apesar de nítido, representaria um pequeno, insignificante e superficial traço de nossa personalidade. Enquanto a maior parte,seria o inconsciente o lado submerso do iceberg, estaria oculto e conteria os nossos instintos.
             Em 1923, Freud definiu a existência do id, ego e superego. ID: representa os processos primitivos do pensamento e as características atribuídas ao sistema inconsciente. É regido pelo princípio do prazer imediato, se apresenta na forma de instintos que impulsionam o organismo, estando relacionado a todos os impulsos não civilizados, de tipo animal. Seria a voz que diria em nossa cabeça “Se está com vontade, vá e faça”. É o “querer”.
              EGO: surge por volta dos 2 ou 3 anos de idade e atua de acordo com o princípio da realidade, estabelecendo o equilíbrio entre as reivindicações do id e as exigências do superego com relação ao mundo externo. O ego localiza-se na zona consciente da mente. Enquanto o id e o superego são as vozes antagônicas, o ego é o responsável pela tomada de decisão.
               SUPEREGO: é a parte que reprime o id, representando os pensamentos morais e éticos civilizados. Origina-se do complexo de Édipo, a partir da internalização das proibições, dos limites e da autoridade. O superego surge a partir dos 4 ou 5 anos de idade. É a entidade psíquica que supervisiona o cumprimento das regras morais é o nosso indicativo interno das normas e valores sociais, e a noção do bem e do mal que foram transmitidos pelos pais à criança. O superego seria a voz que diria “não faça isso, pois não é certo”. É o “dever”.
         Freud acreditava que estas estruturas da psique existem em absolutamente todas as pessoas, claro que cada uma à sua própria maneira, mas essas estruturas são partes indispensáveis do processo mental. No entanto, Freud também acreditava que a luta entre o id, o ego e o superego às vezes gera conflitos no processo mental que, por sua vez, produz sofrimento ou até mesmo transtornos mentais.
        É fundamental que haja um equilíbrio entre ID, EGO e SUPEREGO, e a psicanálise serve para equilibrar essas forças que estão em constante luta. O objetivo da Psicanálise é trazer luz a verdadeira natureza desses conflitos e bloqueios que são as causas dos transtornos mentais. (Félix Pequeno é psicólogo e psicanalista).

E você age mais pelo id ou pelo Superego? Seu Superego é severo, sensato ou excessivamente permissivo?

24 de setembro de 2019

Gostar de sofrer

           Félix Elvas Pequeno

           O psicanalista declara: -“O sujeito goza em seu sofrimento”. O povo traduz: - “As pessoas gostam de sofrer”. Todo mundo sabe disso, usa a expressão com frequência, mas acha que é brincadeira por não ser possível, em sã consciência, alguém gostar de sofrer. E, no entanto, isso é muito comum.
           Como ninguém quer dar recibo, nem para si mesmo, do seu gosto do sofrimento, acaba incorrendo em uma prática dolorosa. Não querendo ser descoberta, a pessoa intensifica suas queixas e dores para melhor justificar seu momento sofredor. Assim, aquela que sofre pela velhice de um parente próximo, ou de uma doença grave, ou de uma perda importante, a cada dia, se surpreende com esse fato, como se fosse algo novo. É um modelo geral que se aplica às mais diversas situações da vida.
            Isso explica, em parte, o crescimento do diagnóstico de depressão.  Estamos vivendo uma epidemia de depressão. A pessoa não está muito bem, anda triste, esquecida, dorme mal ou dorme muito, lá vem a explicação: está deprimida. Entre não saber o que tem e aceitar um rótulo que todo mundo compreende e respeita, a pessoa se agarra ao segundo.
             Assim foi com Maria. Ela não poderia ter outra coisa se não estar deprimida. Com distrofia muscular nos braços e nas pernas, andando em cadeiras de rodas e dependente do seu marido cheio de saúde, o diagnóstico estava pronto só faltando o psiquiatra-psicanalista avalisar, medicar, e explicar como ela deveria melhor se resignar a seu estado depauperado. Mas não foi nada disso que ocorreu.
              Na primeira consulta entraram os dois, Maria e seu marido. Era um homem de forte envergadura, vistoso, contrastante com o estado e o aspecto de sua mulher. Começada a entrevista, Maria mal falava, nem mesmo levantava a cabeça. O analista perguntou se ela queria que o marido se retirasse. Ela não respondeu. Ele, o marido, repetiu a pergunta. Frente ao insistente silêncio dela, afirmou o analista: - “Sim, ela quer que o senhor se retire”. Surpreso, ele saiu. Ato contínuo, ela levantou pela primeira vez a cabeça e declarou: - “Doutor, como é que alguém pode estar bem com um traste desses do lado?”. Começou a se queixar do traste que a cansava, pois, medroso de andar sozinho, a forçava a acompanhá-lo em suas visitas de vendedor.
              Solicitada a contar a história de seus relacionamentos amorosos, com cara de desalento, explicou que aquele homem era o seu segundo marido e que tinha se separado do primeiro, pelo fato do anterior ser um traste maior ainda. A repetição da nomeação “traste” levou à pergunta se o seu problema não seria a “trastite”, ou seja, a escolha repetitiva de trastes como objetos amorosos. Ela abriu um sorriso radioso de confirmação do sintoma e vontade de falar a respeito. Seu tratamento começou assim, bem distante do sofrimento padronizável.
                 Moral da história: muitas pessoas se aferram a um sofrimento de alto valor social, para se justificarem em suas dificuldades. Por isso gozam no sofrimento, perdendo a sua singularidade. Cada um de nós chora ou sorri por detalhes irrelevantes aos olhos dos outros. Difícil é reconhecer e sustentar isso.

Jorge Forbes é Psiquiatra e Psicanalista